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Artigo
26/11/2017 - 13:45:34
Autor: Eduardo Ramos
 
Não é só coisa de preto!

Minha avó paterna chamava-se Franklina Batista de Souza, mas todos a conheciam como ‘Mãe Preta’.

O apelido carinhoso decorre da generosidade que ela dispensava a todos em sua pensão, que funcionava na avenida Bandeirantes no mesmo local onde meu pai reside até hoje.

Por lá paravam os mascates, viajantes e boiadeiros que encontravam ali alimento e repouso para as duras e longas jornadas pelo interior de Mato Grosso. Ela ganhou fama por sempre atender bem a todos, mesmo os que eventualmente não tivessem como pagar.

Mãe Preta morreu quando eu ainda era criança. Mas lembro bem daquela mulher volumosa, com um sorriso radiante me acalentando em seu colo. Eu a amava e tenho orgulho de ser seu neto.

A filha caçula dela, minha tia Leonidia, herdou a generosidade e o apelido, agora no diminutivo. Tia Pretinha, como é conhecida, é outra mulher adorável. Bela, alegre e extremamente generosa, ainda hoje nos dá lições de bem viver.

Cito esses dois exemplos próximos para tratar da polêmica envolvendo o jornalista Willian Waack, que foi flagrado fazendo comentários racistas pouco antes de uma transmissão da Rede Globo.

Irritado com manifestantes que comemoravam a vitória de Donald Trump na corrida presidencial americana, William disparou: “É coisa de preto”.

O jornalista sabia que Trump foi eleito pelos brancos ultraconservadores dos EUA, não pelos negros. Se quisesse poderia ter atribuído o buzinaço que o incomodava aos ‘baderneiros’, ‘mal-educados’, ‘incultos’ ou coisa que o valha.

Mas preferiu gratuitamente usar a palavra ‘preto’ como sinônimo daquilo que desaprovava, revelando um preconceito que infelizmente ainda existe (de forma velada ou não). E é disso que se trata a polêmica gerada após a forte reação da comunidade negra ao vídeo revelador.

A maioria de nós, negros, tem orgulho da negritude e dos antepassados. Muitos não gostam do termo ‘preto’; mas outros, como eu, nem vê nisso um problema em si.

O problema é quando essas palavras (negro, preto) são usadas num contexto claramente racistas, dando um cunho pejorativo e discriminatório aos milhões de seres humanos que têm a pele escura.

Problema maior é quando citações assim são vistas com naturalidade mesmo quando proferida por pessoas públicas e aparentemente bem instruídas. Não se trata, portanto, de um jogo de palavras, mas de consciência.

A lógica que formulou o comentário infeliz de Willian Waack é a mesma que move as abordagens policiais violentas contra negros, a preferência dos empregadores por funcionários de ‘boa aparência’ e que explica a esmagadora prevalência de brancos em cargos de chefias – na iniciativa privada e no setor público.

Essa lógica pressupõe que os negros são inferiores moral e intelectualmente, estando assim mais inclinados à delinquência e propensos ao fracasso.

Essa é a mesma lógica que ajudou a fundamentar o horror nazista e sustentou por décadas o regime segregacionista do Apartheid na África do Sul.

Já vimos o resultado nefasto disso. Sabemos que esta lógica leva à uma consciência que é falsa, criminosa. E precisamos combate-la com vigor.

Minha avó Mãe Preta, minha tia Pretinha e todos os negros do mundo merecem ser respeitados pelo que são, pelo que fazem, pelo que desejam.

E todos nós – negros, brancos, índios, asiáticos… – temos o dever de defender esse respeito como um direito básico para todos os seres humanos. Não é só coisa de preto !

 

*Eduardo Ramos é jornalista na cidade de Rondonópolis - Mato Grosso

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