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Artigo
24/12/2017 - 12:06:46
Autor: Renato de Paiva Pereira
 
Cofre arrombado: a herança maldita

Creio que nós eleitores somos incompetentes para analisar qualquer administração pública, dado ao número de variáveis que precisam ser pesquisadas para ter um diagnóstico minimamente racional.

Nossos julgamentos, baseados num ou dois detalhes que mais nos impressionam, são insuficientes para presumir o acerto ou erro do administrador público.

Grande parte da população costuma definir como boa uma administração municipal quando o prefeito mantém a cidade limpa, as ruas sem buracos e cuida dos jardins e gramados.  

Outros dizem que ele é bom, pois construiu uma creche no seu bairro, ainda há os que o louvam porque regularizou um grilo ou manteve os salários dos funcionários públicos em dia.  

Embora esses detalhes sejam interessantes, nem de longe servem para classificar uma gestão como boa. Avaliações superficiais tendem a nos levar a conclusões desacertadas.  

É preciso saber se as prioridades da coletividade estão sendo atendidas ou se o gestor, para mostrar serviço, não está sacando a descoberto, aumentando dívidas.

O caso da ex-presidente Dilma mostra bem: em 2013, sob seu governo, a taxa de desemprego era de 5,4% (menos da metade do que é hoje e  a inflação estava dentro da meta (5,91%).  

Ela tinha diminuído impostos de diversos produtos industriais e desonerado folha de pagamento, o que beneficiou vários setores da economia.

Só que o emprego foi mantido à custa de concessões absurdas e danosas renúncias fiscais.  

Para controlar a inflação, sobrecarregou diversas empresas estatais, Petrobras, por exemplo, e bancos públicos, que foram obrigados a baixar as taxas de juros artificialmente.  

Tida como boa gestora, a ex-presidente foi mordida pela mosca azul e, para se reeleger, estourou o caixa da União, que até hoje não foi recomposto.

Muitas vezes, nos deslumbramos com frases de efeito, jingles animados, jardins floridos, grama bem cuidada, guia das calçadas pintadas (com a cor da gestão, claro)  e outras perfumarias, que os políticos adoram, sem nos preocuparmos com os custos ou a origem do dinheiro que bancou essas melhorias.

Por isso é que, a cada troca de governo, se o novo for da oposição, o discurso de cofre arrombado ou herança maldita se repete.

Seria bom que tivéssemos acesso a um modelo simplificado de planilha, sem aqueles jargões e  palavrórios enganadores, mostrando para a população os gastos, as fontes das receitas  e a situação do caixa no começo do governo e a atualização a cada mês.  

Com os recursos da informática, é muito simples criar um software que resuma receitas e despesas, origem e destino delas, como se faz nas empresas privadas.

Com isso, poderíamos ficar sabendo que tal ou qual governante fez uma boa gestão dos recursos que arrecadou, ou se, irresponsavelmente, atolou o Município, Estado ou União em dívidas que serão  pagas por futuros administradores.

Renato de Paiva Pereira é empresário e escritor em Cuiabá.

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