Em um terreiro de umbanda no bairro de Ipanema, no Rio, baixa um espírito que nunca tinha frequentado aquele local: “On cô tô”? Pergunta o recém-chegado, insistentemente.
Como ninguém estivesse entendendo, um mineirinho que escutava a conversa cochicha no ouvido do pai de santo “Ele está perguntando onde que eu estou?”
Informado de onde estava o espírito do Dr.Tancredo Neves, avô do senador Aécio, pediu meia dúzia de pão de queijo. “Enquanto eu como”, disse ele, “um de vocês poderia, por gentileza, buscar meu neto, preciso dar um corretivo nele”.
“Tô muito desapontado com você, Aecin...”. Vai dizendo, sem rodeios, assim que o senador chega. “Eu sei vovô, peço desculpas por não ter honrado seu nome.”
“Nem consigo acreditar que você foi gravado pedindo dinheiro praquele açougueiro lá de Goiás...”. “Eu estava precisando muito de dinheiro, minhas despesas aqui no Rio são muito altas.”
“Altíssimas: champanhe, uísque 15 anos, vinho Romanée Conti, além daquele pozinho. Também estou estarrecido com as filmagens do seu primo recebendo aquelas malas de dinheiro vivo em teu nome?”
“Eles armaram aquela arapuca...” “E vocês caíram feito tontos. Demorei a acreditar, diz o Dr. Tancredo, na gravação da venda do apartamento da sua mãe, é muita infantilidade. E os comprovantes de transferência do mensalinho de 50 mil?”
- Acho que não tenho salvação, são tantas coisas que já apareceram. O senhor não pode me ajudar?
O ex-presidente Tancredo ficou quieto, pediu mais um pão de queijo, por fim disse: “Vou tentar, tem um especialista amigo meu que pode adulterar o sorteio de turma do STF. Ele te coloca na segunda turma”.
O Aécio ficou eufórico, cair na segunda turma do STF era seu sonho. Já estava saindo quando resolveu tirar uma dúvida: “Só me conta uma coisa, vovô”, disse “no seu tempo, como o senhor e seus companheiros lidavam com esse trem?”
“Do mesmo jeito que vocês fazem hoje: recebendo ajuda das empreiteiras, socorros dos bancos, repasses das grandes empresas, usando caixa dois, e, principalmente, trocando votos por cargos..” “Mas então, se sempre foi assim, por que está decepcionado comigo?”
“Aécin meu neto, acho que aquele pozinho tá acabando com seus neurônios. Minha frustração é com sua ingenuidade: foi fotografado, gravaram conversas suas, falou na frente de testemunhas. Isso nunca aconteceu comigo, com o ACM, o Mario Covas, o Ulysses... Veja o Sarney, até hoje tá mandando no MDB.”
“Entendi vovô. Se o senhor me tirar dessa vou ficar esperto, nunca mais me pegam...” Quando o mensageiro que foi levar o neto voltou, encontrou o Dr. Tancredo ainda comendo pão de queijo. “Deixou o Aécin no apartamento dele?” Perguntou.
“Que nada presidente. Ele voltou pro bar. Quando eu saía ainda escutei o pipoco das champanhes e a comemoração da turma.”
*Renato de Paiva Pereira é empresário e escritor