Motivos não faltam para estarmos furiosos. Nossos governantes e nossos políticos, assim como nossas autoridades policiais ou judiciárias, nos dão motivos suficientes para estarmos insatisfeitos, envergonhados, ou mesmo arrasados. Entretanto, mais do que a fúria justificada, há um ódio não legítimo, além de muita raiva ressentida movendo os sentimentos nacionais.
O que tem movido o país, desde a última eleição, tem sido a raiva e o ódio. É por contraposição que agimos ou reagimos. Verdade que nossos políticos das diversas esferas não valem grande coisa, que nossas instituições deixam a desejar devido as possíveis interpretações das leis locais, que há um conjunto de mandatários sem brio ou honestidade. Entretanto, a raiva e o ódio são mais decorrências das incompetências pessoais de escolher bons governantes, da não percepção de que não se sabe de fato o que fazer e como agir; como crianças odeiam o que não se consegue dominar.
É um ódio e uma raiva insana, digna da impotência em saber agir de forma apropriada dentro das coisas impróprias que ocorrem nesse país. Um sentimento ressentido, que busca nos supostos defeitos dos demais, o motivo pelo qual se é infeliz. Uma cegueira do agir próprio e dos demais, acrescido de uma pequenez de sensibilidade sobre tudo mais e todos demais.
Sabe-se que nem a raiva nem o ódio são bons conselheiros, logo não se consegue julgar os acontecimentos, apenas condená-los ou enaltecê-los. E não se busca entender o que ocorre, mas antes condenar suposto culpados de não se obter o sucesso ou a sobrevivência. Não se tem a paciência para debater e entender o que está acontecendo, mas a pressa do carrasco de logo cortar algum pescoço.
Será preciso deixar de ser infantil e amadurecer. Deixar de buscar culpados ou salvadores, e se perceber e se colocar como parte da solução, não dos problemas. O problema não é existir pessoas que pensem diferente de nós, o problema é não conseguirmos pensar numa mesma coisa, e cada um só ficar preocupado consigo próprio.
Contra o ódio e a raiva devemos contrapor o amor e a amizade, pois a vida em cidadania exige que aceitemos a convivência de todos, e nunca a exclusão dos diferentes. Podemos ter adversários, mas não devemos ter inimigos, podemos ter concorrentes e competidores, mas não alguém a ser derrotado ou eliminado; podemos ter certezas e convicções, mas não se podem obrigar os demais a concordar com elas, ou menosprezar aqueles que delas não concordem, ou ofender nossos discordantes.
Do ódio e da raiva surge a guerra, uma indignação indigna, a sensação de que a mera existência do outro parece representar uma injúria para a nossa existência. Precisa-se da maturidade política para deixar a passionalidade pública e assumir uma posição de moderação e virtude republicana, acolhendo os demais como parte de um todo, e não como seres a serem eliminados do convívio.
Não se deve combater os demais, mas lutar pelas ideias próprias; deve-se desejar a vitória, não a derrota do inimigo, ainda que isso ocorra; o que está em jogo é a construção de um espaço próprio, que não deve acarretar na destruição do espaço dos demais.
*Roberto de Barros Freire é professor do Departamento de Filosofia da UFMT