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Artigo
04/10/2013 - 12:33:32
Autor: Tom Custódio da Luz
 
Um reinado nunca descansa, o que mais vamos esperar da festa no dia seguinte?

No dia seguinte o castelo estava em completa desordem. Taças manchadas de batom espalhadas pelas mesas e pelo chão, junto de garrafas vazias de vinho e de cervejas exóticas; garrafas de uísques antigos sobre bancadas de armarinhos. Nas masmorras absintos pela metade e um frasco de láudano sobre uma prateleira. Mesinhas redondas e uma grande mesa comprida no meio da sala de jantar principal ainda com pedaços de comida fria, carnes e sementes, queijos, pães variados, alguns abocanhados, caídos de borco sobre a toalha, manchando-a de molho branco, pesto e caviar. Sobre o assento de uma poltrona, como que para pregar uma armadilha a algum desavisado que se sentasse ali, alguns garfos sujos. Um gramofone agora silencioso ao canto descansava corcoveante e dourado.

Nos jardins havia dezenas de pessoas espalhadas deitadas pelo chão. Um rapaz em repouso perto do lago teve sua cartola carregada por um pato que a levara para dentro da água e em seguida a deixara flutuar ao sabor do vento. Metade cobertos por um grande arbusto um rapaz e uma moça, com as vestes meio abertas, mal ajustadas, estavam deitados ao chão, abraçados e imóveis. Uma criança montava uma estátua de leão próxima à porta do palácio, a cabeça repousando na juba de pedra: uma menina com um bilhetinho preso na mão fechada com força. Um passarinho pousou na cabeça da escultura, o dia já começava. Podia-se ver o sol se erguendo por detrás das colinas pontudas e nevadas ao longe.

Pelos corredores do castelo dormiam convidados que não voltaram para suas casas. Os serviçais estariam doentes, talvez, seria um dia de feriado – mas um reinado não descansa! –, o certo era que reinava a imobilidade, o repouso. Parecia-se ouvir subsonoramente, através de ouvidos internos, talvez, o zumbido de uma abelha, mais intenso e mais fraco, como que se aproximando e se afastando em elipses, como o vai e vem da respiração. O que mais esperar da festa quando já terminou? Nada, porém o ar exibia tensa uma película como a da superfície da água e que parecia prestes a ser quebrada. Quem sabe pela entrada triunfal de um príncipe criança montando um grifo, com uma espada de kendo à mão direita e um sorriso triunfal. Mas não havia ninguém desperto, todos continuavam estatelados sobre tapetes e almofadas.

No aposento real a jovem rainha dormia sobre um divã completamente vestida. Em volta do pulso uma pulseirinha de líquido fluorescente, como se cativa de uma pequena serpente psicodélica. A respiração leve, os olhos fechados tremelicando espasticamente: sonhava com o oriente e com o príncipe montado no grifo. Num vaso uma única rosa vermelha perdia sua primeira pétala.

 

*Tom Custódio da Luz, 22 anos, é escritor, compositor, cantor, músico e colaborador do Jornal da Notícia.

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