Os atentados terroristas em Paris na semana passada chocaram o mundo ocidental e falou-se nas piores retaliações dos países europeus e dos EUA contra o Estado Islâmico. Foram 129 mortes e 400 feridos. Claro que estamos falando de uma coisa muito alarmante pelo que o atentado significa. Tirou a paz de todos os países do continente, afetou seus negócios, arrasou o turismo, gerou preconceitos contra árabes residentes e trouxe profundas incertezas sobre a segurança no futuro.
No mundo a violência alarmante está localizada historicamente na África com suas enormes contradições étnicas, econômicas, políticas e sociais, no Oriente Médio de uns anos para cá mais intensamente. No Brasil a mídia cobriu à exaustão o atentado em Paris, e aproveitou o fato novo pra encobrir um dos maiores atentados ecológicos do século, na cidade e na região mineradora de Mariana, em Minas Gerais. Aproveitou também pra desviar-se dos incômodos temas políticos representados na guerra política rasteira entre o cômico Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, e o quase inexistente governo Dilma Rousseff.
Porém, tem drama maior. O IBGE divulgou na semana o mapa da violência no Brasil, tomando o ano de 2012 como estatística consolidada. Morreram 42.416 pessoas por arma de fogo no Brasil em 2012. Levando em conta os assassinatos, acidentes, suicídios e causas indeterminadas, entre 1980 e 2012, as armas de fogo foram responsáveis por 880 mil mortes no Brasil. Este número é maior do que qualquer guerra nesse período: Iraque, Kwait, Afeganistão, guerras tribais e nacionais africanas.
Ontem estava vendo essas estatísticas, vendo a mídia e pensando na imensa hipocrisia brasileira. O rio Doce, que em Minas tem importância semelhante à que tem em Mato Grosso o rio Cuiabá, o Teles Pires, ou o Araguaia, foi destruído por um mar de lama que matou gente e soterrou vilarejos. Mas tem capital estatal da Vale na empresa mineradora, e a mídia brasileira "amaciou" a cobertura. Encheu-nos com o atentado em Paris, lavou sua consciência e as mãos, e deu-nos um alívio idiota: "ainda bem que não foi aqui".
Cabe uma pergunta incômoda ao leitor: não seria melhor trocar o atentado de Paris pela catástrofe de Mariana? Ou o mapa da nossa criminalidade pelos tiros dos terroristas que mataram só 129 pessoas?
*Onofre Ribeiro é jornalista em para Mato Grosso desde 1976, consultor em comunicação e estratégias e professor.