“.... E quando a noite vai se agonizando no clarão da aurora...” coincidentemente era sempre essa musica que ele estava cantando quando eu chegava, ela não podia faltar no seu repertorio e com certeza ainda não pode.
Todo domingo ele estava ali, com seu vestuário pobre, às vezes repetido. Do seu violão cansado saía acordes bem feitos, da sua alma saia canções perfeitas, que ninguém nunca notava. Pessoas passavam, iam e voltavam de bicicleta, a pé, de carro novo, carro velho, ninguém se impor tava se ele estava ali cantando pra eles ou se cantava pra ninguém, mas ele não desistia, soltava a voz como se cantasse pra uma multidão.
Certa vez, alguém bem vestido num carro importado, parou e conversou com o moço, ficou algum tempo ali ouvindo demonstrando que gostava da apresentação, então aqueles que antes o ignoravam começaram a parar também, alguns até se atreviam a pedir musicas.
Já faz algum tempo que eu não o vejo mais, com certeza ele não parou de cantar, deve estar em algum lugar melhor, melhor trajado, talvez até com um violão elétrico.
Me arrependo de nunca ter dado um apoio a ele, nem ao menos disse alguma vez, - poxa ,...você canta bem pra caramba.
Mas no fundo eu sempre torci pra que ele fizesse sucesso, pra que um dia deixasse de ser um cantorzinho, como diziam aqueles que nunca lhe deram valor. Quem sabe um dia numa televisão qualquer eu o verei cantando tão humildemente como fazia naquele barzinho a beira da estrada e o apresentador dizendo - esse rapaz é um grande cantor.
*Valdir Fachini é poeta e compositor