Domingo, 19 de Abril de 2026

CPI na Seduc - Ação de bando que roubava dinheiro não pode ficar sem resposta




COMPARTILHE

Me surpreende negativamente, a cada dia que passa, o descompromisso dos gestores públicos com a educação de nossas crianças, a ponto de lançarem suas mãos-sujas sobre os recursos públicos destinados à formação das futuras gerações.

Sabemos que temos uma população de 11.000 (onze mil) pessoas presas em Mato Grosso, e aproximadamente 70 % (setenta por cento) desse estrato social teve algum envolvimento com a rede de tráfico e isso resultou na restrição de liberdade.

Sabe-se que as crianças ou adolescentes que ficam fora da escola, em cidades que não possuem bibliotecas e nem áreas de lazer, acabam sendo presas fáceis dos narco escravagistas.

Não roubaram somente R$ 56.000.000,00, lesaram o futuro de milhares de crianças, as condenando à prostituição infantil e as expuseram a diversos outros crimes que impedem a paz social

A pedagoga Ana Arlinda de Oliveira, professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), com pós-doutoramento pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), realizou uma pesquisa no presídio feminino Ana Maria do Couto May, unidade que atende mulheres reclusas em Cuiabá, a única da espécie em Mato Grosso, buscando saber o hábito de leitura daquelas enclausuradas por força de decisão judicial.

E o resultado é estarrecedor.   

Num universo de 20 (vinte) mulheres entrevistadas, cuja pesquisa resultou no livro “Vida e leitura; narrativas na penitenciária feminina” (EdUFMT; 2014), a totalidade do grupo havia concluído o primeiro grau (primário), mas não prosseguiram nos estudos por motivos diversos, entre eles o principal era a ausência da oferta do ensino.

As mulheres pesquisadas estavam reclusas e procurando estudar no presídio, buscando uma futura chance de vida decente que o Estado lhes negou, por não oferecer a escola no tempo oportuno.

É possível crer que se tivessem acesso à formação escolar adequada aquelas mulheres buscariam outra opção que não o mundo do crime, as estudantes representam mais ou menos 15% da população da unidade prisional.

Trazendo essa projeção para o conjunto dos 11.000 presos do sistema penitenciário, a negação da escola condenou pelo menos 1.700 almas ao cárcere.

Considerando as despesas geradas para o Estado de Mato Grosso para manter as cadeias o quadro é ainda mais entristecedor, já que o custo médio de cada detento é de R$ 1.900,00 (hum mil e novecentos reais) mensais, podemos crer então que o prejuízo é de R$ 4,5 milhões a R$ 5 milhões por ano.

Por essa razão, a descoberta que a alta gestão da Secretaria de Educação de Mato Grosso (Seduc) abrigou em sua estrutura uma enorme quadrilha que roubava dinheiro desviado da formação de crianças e adolescentes não pode ficar sem resposta.

Não se tratavam de meros “barnabés”. Um dos presos era o segundo homem na hierarquia da Secretaria de Educação, e outro é assessor do presidente da Assembleia Legislativa.

O Governo deve satisfação à sociedade.

Temos visto uma luta incansável das entidades e pessoas com senso crítico em denunciar e pedir punição aos corruptos, e quando o recurso público roubado é da Educação a indignação é ainda maior, o crime se equipara a hediondo, pelos seus reflexos em efeito dominó.

Esses ladrões foram indicados por políticos e partidos políticos para gerir a Secretaria de Educação. Precisamos saber os nomes desses canalhas, exterminadores do futuro das criancinhas filhas do bom povo de Mato Grosso.

A teoria do domínio funcional do fato também se aplica a estes, “patrocinadores” das nomeações.   

É o mínimo. Não roubaram somente R$ 56.000.000,00, lesaram o futuro de milhares de crianças, as condenando à prostituição infantil e as expuseram a diversos outros crimes que impedem a paz social.

CPI da Seduc já!

*Vilson Nery é advogado especialista em Direito Público e Mestrando em Educação pela UFMT.


Autor: Vilson Nery


Comentários
O Jornal da Notícia não se responsabiliza pelos comentários aqui postados. A equipe reserva-se, desde já, o direito de excluir comentários e textos que julgar ofensivos, difamatórios, caluniosos, preconceituosos ou de alguma forma prejudiciais a terceiros.

Nome:
E-mail:
Mensagem:
 



Copyright - Jornal da Noticia e um meio de comunicacao de propriedade da AMZ Ltda.
Para reproduzir as materias e necessario apenas dar credito a Central AMZ de Noticias