Maria: “O papai acabou de chegar”. Essa era a frase que ela mais gostava de ouvir. O trabalho do genitor demandava muitos dias fora de casa.
Todas as vezes que o pai estava longe, as febres e dores de garganta faziam morada, não só na garotinha que admirava aquele homem como herói, mas, também, para o irmão, um pouco mais velho.
Não era à toa a idolatria ao pai. Ele fazia o gosto dos filhos quando estava presente, tratava a esposa com amor, era pessoa especial. Aliás, era a formação perfeita de família, a verdadeira “propaganda de margarina”.
O pai exibia a filha de olhos claros, sempre linda. Entretanto, o labor por ele exercido exigia inúmeras viagens, que deixava toda a casa triste. A volta era a recompensa. Ele chegava com novidades e carros bonitos. A família possuía condição financeira privilegiada.
Certa vez, aquele amado pai resolveu adquirir nova moradia para a alegre família, deixando escolhidas duas belas casas, levando Maria para decidir qual delas mais lhe agradaria. A criança não teve dúvidas, escolheu o sobrado amarelo, com uma enorme piscina.
Com toda certeza, seriam ainda mais felizes lá. Todavia, o amado pai realizou uma de suas viagens, mas, desta feita, não retornou conforme o esperado. Maria e o irmão ficaram, novamente, doentes. As febres foram altas e frequentes.
A escola, que antes era lugar por ela considerado lugar peculiar, já não era tão importante. Aliás, nada estava bom. As brincadeiras com os amiguinhos e amiguinhas não tinham a mesma graça.
Maria não sabia, mas, a sua genitora, em razão da saudade dos filhos, procurava o homem com afinco. Sabia que para seu marido não servia mais.
Como o marido some, sem deixar qualquer pista do que havia acontecido? Porém, era o pai dos seus filhos, gostaria que ele voltasse.
Pelo menos, para cessar as doenças deles. A mãe, com o sumiço inesperado do cônjuge, passou a trabalhar fora e estudar à noite, buscando a capacitação para proporcionar melhor vida aos seus.
À noite, quando se dirigia à faculdade, as crianças ficavam com a avó materna. Dois anos após a procura, o pai da Maria reaparece. Nossa, a felicidade voltou! Tudo voltaria a ser como antes. Infelizmente, não.
O pai voltara diferente, sem o carinho. Agora, era um homem que falava palavrões e gritava com a mãe.
Certa noite, a tragédia inesperada acontece. A avó da menina recebe um triste telefonema informando que o pai haveria desferido quatro facadas naquela doce matriarca. A mulher estava entre a vida e a morte.
O herói agora era vilão. Com que direito teria tentado matar aquela que tanto amor dedicava aos seus rebentos? Definitivamente, Maria deixou, aos sete anos de idade, naquela fatídica noite, de considerá-lo como pai.
Mercedes, mãe da Maria, conseguira, após muitos dias internada, inclusive, em tratamento intensivo, voltar para casa e terminar a criação dos filhos. O agressor ficara poucos dias preso.
Com a liberdade, teimava em querer conviver com os filhos, que, agora, o reconheciam como monstro. Não havia mais qualquer possibilidade de continuar a convivência com alguém que tentara matar uma grande mulher e mãe.
Quando Maria contava 21 anos, recebeu a notícia da morte do seu pai. Nada, nenhum sentimento nela brotara. Já não possuía laço afetivo com aquele homem.
Depois de 20 anos daquele triste episódio, Mercedes reconstrói a sua vida com outro homem, e está casada até os dias atuais. Desta feita, vive em harmonia, sendo mais de 16 anos de matrimônio.
Maria, muito sofreu com o drama familiar. Terminou a infância sem a presença do pai. No início da adolescência, depois do afastamento do “malfeitor”, conseguiu se reerguer.
As forças foram todas empregadas nos estudos, com o sonho de ser alguém.
Maria, na atualidade, é jornalista em Cuiabá. Diga-se de passagem, de extrema competência e compromisso profissional.
Em suas palavras: “Já desejei ser médica, psicóloga, astronauta etc. Entretanto, cursei administração, teatro, dramaturgia, e me tornei jornalista. Vou permanecer jornalista, assim posso falar de tudo que sonhei ser, e me descubro a cada instante. ”
*Rosana Leite de Barros é defensora pública estadual e presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher de Mato Grosso.
Autor: Rosana Leite de Barros