Nada seria mais fácil do que comandar um Estado em ruínas. A legitimidade dar-se-ia pela simples comparação. Em Mato Grosso, é provável que essa variável tenha sido considerada em plena crise moral. Pedro Taques, após uma meteórica ascensão ao Senado, sustentado no discurso anticorrupção, se comparado às gestões anteriores, seria um bálsamo de governança.
Se na Câmara Alta, lançou-se à anticandidatura contra um corrupto, em Mato Grosso a candidatura tornou-se vitoriosa. Não poderia dar errado. Basta-nos observar quantos braços de um corrupto polvo estiveram ou estão presos em cadeias para, então, comparar o passado com o presente. É aí que entra um homem blindado de vícios. É aí que surge uma opção de confiança. Alguém em quem confiar. Ocorre que a realidade não é bem assim.
A realidade é um bicho teimoso, bronco, indomável. Parece que segue mansa às vezes para, quando menos se espera, rebelar-se contra o cavaleiro que pretenda domá-la. Em Mato Grosso, a recalcitrância da realidade assustou o governador Pedro Taques. É que a lisura com a coisa pública não se transmite por osmose, muito menos por discurso.
Vemos que não adianta apenas mudar a cabeça para que o polvo seja um outro animal, pois continua com seus tentáculos e suas ventosas, palmilhando onde há verba pública. A corrupção não depende de uma única pessoa, enfim. As pessoas com as quais se lida – e muitas vezes, nas quais se confia – têm um passado, uma prática, um conjunto de aliados e, lamentavelmente, de compromissos.
Sartre já pontificou que “o inferno são os outros”. Pois então. Daí que os desafios estão postos e são redobrados. Por um lado, o combate da corrupção sistêmica que é tentação num deserto austero; de outro, a continuidade da administração com normalidade que o calendário demanda. O pior ao governante é a paralisia diante dos caminhos. O pior é a incredulidade, a perplexidade, o medo. É que, ao contrário do que parece, não há dois caminhos – um corrupto e outro puro.
O caminho é esse que está aí, com esses líderes, esses partidos, esses servidores, esses parlamentares, esses sindicalistas, esses juízes, esses prefeitos, esses conselheiros, esses secretários e esse governante. Ninguém melhor do que ninguém, ninguém acima de ninguém. Não há realidade paralela como numa Matrix para se acordar, de repente. É preciso conviver com esse cardápio, sem queixumes ou falta de apetite. Muito se falou “do limão, uma limonada”. É exatamente o caso de Mato Grosso: milhares de limões novos e velhos para todos os gostos e votos.
O governante não é historiador. Não adianta explicar ao povo que a culpa é do passado. Pode ser. De vez em quando, é. No entanto, o passado aí está, impossível de ser mudado, dando de ombros para acusações. O passado já passou: ele permanece incólume às acusações e, mesmo que seja condenado, não pode ser obrigado a mudar. Há a dívida deixada para trás, ou melhor, para a frente. E agora?
Os servidores querem a reposição, as escolas querem mais verbas, os poderes querem se fortalecer, as obras querem acontecer, as pessoas precisam continuar caminhando. Diante das dificuldades, a realidade é sempre presente, nunca passada e jamais futura. E agora?, repito. Agora, é enfiar a culpa e os culpados num saco, amarrar com força e puxar esse peso enorme com força – sempre pra frente. Quo vadis? Não vamos a lugar algum. Ficamos em Mato Grosso.
Resta conviver com essa besta-fera de realidade, esse incômodo cisco num olho sonhador que enxergava somente o futuro. A realidade está alojada na pálpebra, se for pequena. Pode ser uma pedra no rim, se crescer. O desemprego, a perda da capacidade de compra, a crise de arrecadação, a paralisação das obras, a crise de mobilidade urbana, os servidores e suas faixas, seus cartazes, suas reivindicações.
Finalmente, a fatigante corrupção colada às extremidades do flácido corpo público. Tudo exige energia. Tudo reclama atenção. Não é possível abdicar de onde se vive e, sobretudo, com quem se convive. Não funciona martelar a realidade. Ela é malandra, resistente, gelatinosa. Ela volta falando mais alto.
Com a realidade, é preciso consistência e persistência, um serviço de ortopedia de costumes. Paciência, Pedro. Força, Pedro!
*Eduardo Mahon é advogado em Cuiabá.
Autor: Eduardo Mahon