O governador Pedro Taques tem falado mais do que ouvido. Tenho acompanhado todos os governadores de Mato Grosso desde 1976. Uns conversaram mais, outros menos.
Destaco os que mais apanharam por terem conversado pouco: Frederico Campos, Carlos Bezerra, Dante de Oliveira e Blairo Maggi.
Foram os que tiveram mais crises. Júlio Campos em 1984 extrapolou apontando na televisão, uma caneta pros professores grevistas e disse-lhes uma frase fatal nunca esquecida: “essa caneta tá cheia de tinta pra assinar a demissão de vocês”.
Neste momento o governador Pedro Taques enfrenta muitas frentes de crise, todas pendentes de conversar. Nenhuma delas precisaria existir se tivesse havido conversas antes. A primeira com os sindicatos de servidores, que o apoiavam tranqüilos. Hoje, não!
Com o agronegócio há uma tempestade se formando na questão da taxação. Com os poderes, em particular com o Judiciário, abriu-se uma perigosa frente de desgaste. Com os empresários do comércio pela reativação do Decreto 380 que mexe na cobrança do ICMS.
Com os estudantes que indicam uma onda de invasão de escolas. Com a Assembléia Legislativa que assume as negociações salariais e interpõe uma cunha política perigosa numa linha direta que o governo antes tinha com os servidores. Por último, uma onda de greves se desenhando.
Como pano de fundo, uma forte crise econômica que, de fato, afeta o cofre estadual. O governo adotou uma estratégia perigosa pra conversar com a sociedade, com os poderes e servidores. Comunica-se pra dentro falando pros de casa ou falando pra fora através da mídia.
Os governadores citados erraram semelhante: falar através da mídia. Ela serve pra legitimar publicamente o que antes foi falado e conversado com as partes envolvidas.
Não existe possibilidade de um governo ter sucesso se não se dispuser a conversar permanentemente. Conversar implica em ceder, avançar, ceder, refletir, discutir, aprender, ensinar, dialogar. E se aconselhar. Não é o que se vê.
Muito arriscado uma gestão perder o timming das relações logo no início. Os riscos das crises são enormes. Recorde-se a gestão Carlos Bezerra (1986/1988), um tumulto só!
Se em 1930 “governar era fazer estradas”. Hoje governar é conversar. E ouvir!
*Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso.
Autor: Onofre Ribeiro