Domingo, 19 de Abril de 2026

Problematizando o Dia da Mulher




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O Brasil vem passando por profundas transformações sociais e políticas, o que implica em dizer que a atual conjuntura política e econômica, reveste em moldes e características tipicamente neoliberais (mesmo alguns dizendo que não são).

Esse cenário tem se mostrado extremamente conservador, principalmente por que tem oportunizado emergir vozes ativas contra direitos sociais, historicamente garantido, por meio de lutas e resistência. Os discursos vistos e escutados, são impregnados de superficialidades, com conteúdo meramente focal, ou seja, a todo um direcionamento de seus significados.

Para o contexto, a que se propõe essa reflexão, os atuais (não tão atuais assim) discursos conservadores, rebuscados intrinsicamente de hipocrisias, questionam sobre o significado do papel da mulher na sociedade, suas trajetórias de lutas e conquistas ao longo dos últimos tempos. Em outros momentos, questionam também sobre a importância dessa categoria social no contexto contemporâneo.

Afinal, quem são as mulheres contemporâneas ou na contemporaneidade? Essas inquietações sempre ocorrem nos meses de comemoração ao Dia Internacional das Mulheres.

A data surge em início ou meado do século XX, como momentos táticos de mobilização para a conquista de direitos e problematização do “lugar” da mulher na sociedade, principalmente, a classe trabalhadora, ou em tempos atuais, as que se reconhecem, enquanto classes trabalhadoras. Ao longo do tempo, desde a objetivação de empoderamentos e visibilidades de direitos negados, a data em si, vem se esvaziando em conteúdos e "perdendo" suas características iniciais.

Explico!

As datas emblemáticas (reivindicatórias), vem paulatinamente sofrendo (ou passando) por um processo de mercantilização de seus significados, ou talvez uma “submissão conivente” ao Mercado. E aponto, como muitos sabem, não apenas o dia das mulheres, mas o dia das mães, dos pais, do natal, diria praticamente “todas” essas datas, em que seu conteúdo, sejam capazes de se tomar formas de objetos comerciáveis.

É fato que o capital, também se relaciona com as oportunidades surgidas, pois de igual modo, se constituem em campos férteis aos negócios rentáveis. Para além dessa concepção mercadológica, houve-se também um processo simbólico de descaracterização dos significados e dos conteúdos reivindicados pelo Dia das Mulheres, como discutir as discriminações e violências físicas, morais e psicológicas.

Essas problematizações foram sendo substituídos por conteúdos (práticos) da cosmetologia, ou seja, o ramo do “conhecimento” que versa sobre os produtos de higiene e beleza, em seus vários aspectos. Por questões apenas de natureza médico-biológica, e em outros momentos, os aspectos reivindicatórios das lutas foram traduzidos em singelas homenagens, esvaziadas de conteúdo, bem como frases prontas feitas e (re) produzidas para efeitos de ordem emotivas.

A meu ver, não me oponho ou vejo óbice em datas comemorativas, festivas ou simbólicas. Contudo, me permito questionar, sobre qual ou quais os reais significados e o grau de comprometimento que essas DATAS, para além do seu conteúdo histórico, implicam de fato na mudança das estruturas das sociedades ou nas relações sociais, hierarquicamente organizadas, tendo como base as relações de gênero?

Talvez a problemática ou hipótese seria - o que representa ou quais são as perspectivas e implicações reais sobre o Dia Internacional da Mulher no cotidiano das mulheres? O que essa data rebuscada de glorificações, significa diante de tantos outros dias de segregações, desigualdades e uma centena de mazelas psicossociais. Sistemas opressivos estes, que intrinsicamente estão atrelados nos trajetos percussivos desde tempos imemoriais e profundamente marcados em corpos sociais, culturais e políticos denominados MULHERES.

Quando reflito sobre a categoria MULHER, não a percebo em um tom singular, mas sim, em um conjunto de MULHERES, de corpos sociais que se constroem e reconstroem em tons de mulheridades. Esses corpos que, historicamente (re) afirmam a autonomia de seus trajetos, percursos, corpos, vidas, sexualidades, entre tantos outros aspectos de seu ser. Reivindicam por que estão, e se reconhecem e compreendem, como estando acorrentadas nos perversos grilhões ideológicos dos sistemas opressivos. Correntes opressivas essas, que as localizamos nas origens adâmicas, que se espalharam pelo mundo como “ervas daninhas”, ecoadas ao som da “boa nova”.

Esse contexto, me remete a alegoria de Prometeu, e assim como este, as mulheres têm suas entranhas (dignidade/cidadania) devoradas, dia após dia, noite após noite, tendo por carrasco todo um sistema opressivo e excludente, que sustenta-se e legitima-se nas relação antagônicas de gênero e do reducionismo binário, que se ramifica e transversaliza-se nas complexas teias nocivas do sexismo, da misoginia, da LGBTfobia, da perspectiva da heteronormatividade, entre muitos outros/as.

Quanto a data em si, o 8 de março, se for para desejar-lhes algo, então que se deseje as essas mulheres, que se reivindiquem suas mulheridades, suas lutas, suas bandeiras, para que suas vozes não se esfacelem como pó nos ventos de tempos esquecidos.

Por fim, cabe recuperar Simone de Beauvoir quando ela diz que “no dia em que for possível à mulher amar em sua força e não em sua fraqueza, não para fugir de si mesma, mas para se encontrar, não para renunciar a si mesma, mas para se afirmar, nesse dia tornar-se-á para ela, como para o homem, fonte de vida e não perigo mortal.”

*Rodrigues de Amorim Souza é acadêmico de Ciências Sociais e pós-graduando em Políticas de Segurança Pública e Direitos Humanos da UFMT


Autor: Rodrigues de Amorim Souza


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