Quarta-Feira, 14 de Janeiro de 2026

Amor e ódio




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O que se pode deduzir do amor? Dele se pode afirmar muita coisa, menos que é usado, abusado e doado. E olha que ironia, onde o amor é mais lembrado? No ódio. A dualidade maniqueísta - o bem e o mal - parece existir como missão, trazer à lembrança um e outro, não na prevalência, mas justamente na ausência.

Na instantaneidade do acontecimento, daquilo que nos falta que se mede o arrependimento. E tanto de um quanto de outro.

No sentimento de injustiça, somente para exemplificar, o que sobreleva mais, senão o ódio? Sim, é sintomático. Aquele que não odeia, não carrega a chama da reação.

Mas, então, é possível reação somente com o amor, com a doação? Ou o ódio lhe é característico, variando somente de intensidade? E ainda, o amor afasta o ódio ou o ódio é quem afasta o amor?

Se para a resposta levar mais que segundos, a consequência é que são de iguais necessidades. Assim, pode-se afirmar que quem deu ao ser a capacidade de amar, por correlação inversamente proporcional, brindou-o com a indignação odienta? Ou há indignação amorosa? Há, mas somente na omissão.

Seria mais ou menos isto: estou injuriado com essa situação; mas amo, então, o ideal para não ofender, para não criar arestas e mais sofrimento, me calo. A lógica do ódio, o seu papel, a razão de sua existência, é justamente fazer a todos se lembrar do amor.

Da mesma forma, as pessoas boas são identificadas pelo senso comum por que são boas ou, o que parece contraditório, mas não é, o são em face das más? Sem a maldade, qual seria a importância da bondade?

É interessante o papel das religiões nessa dualidade. Se Deus deu a quem amar, quem deu a quem odiar? Ambos foram dados por quem? Jesus subjugou a satanás; o amor, portanto, venceu o ódio. A quem o Mestre dos mestres, o próprio amor feito pessoa, venceria se não houvesse o ódio?

Para Aristóteles, o amor é um fenômeno humano, pois, o bem, necessariamente, vem do outro. A divindade não tem necessidade de amizade, pois, é o próprio bem para si mesma.

O amor, a dor, a saudade, traz ensinamentos. No espaço, o tempo é pego de surpresa. Não é uniforme e nem infinito, porque o espaço lhe fixa determinada finitude para que o ser reflexivo possa meditar e corrigir aquilo que o inquieta de forma desumana.

Quem disse que a dor de uma saudade ou mesmo advinda de algo que não se controla não ensina a viver? Os caminhos se constroem da mais pura honestidade intelectual na percepção de nossas crises e angústias.

Ser feliz é obrigação de todos na medida em que o amor e o ódio não são partes da alma, mas da condição humana. É por aí...

 

*Gonçalo Antunes de Barros é juiz de Direito em Cuiabá


Autor: Gonçalo Antunes de Barros


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