Um dos ícones arquitetônicos da História de Mato Grosso, a Residência dos Governadores, no Centro de Cuiabá, vem sofrendo com o descaso por parte do Poder Público.
O imóvel, de responsabilidade da Secretaria de Estado de Cultura desde 2014, apresenta desgastes por conta do tempo e da falta de manutenção.
Em visita aos arredores da casa, que fica na Rua Barão de Melgaço, o MidiaNews constatou um cenário de abandono. Um outdoor – que fica no quintal – está há mais de um mês no chão, provavelmente derrubado devido a uma das chuvas de dezembro.
As janelas, feitas de madeira, já demostram sinais de descuido: partes quebradas e pintura desgastada. Em um dos cômodos do segundo andar, é possível ver que o lado de uma das janelas veio abaixo. Quem entra no local se depara ainda com galhos secos espalhados pelo chão, demonstrando que falta, também, serviço de limpeza.
A casa está fechada desde o outubro de 2017. Em agosto do mesmo ano, a Secretaria de Estado de Cultura havia lançado um novo edital para a gestão do Museu Histórico de Mato Grosso e Residência dos Governadores, que funcionava no local.
Entretanto, a MT Fomento, atual Desenvolve MT, contestou a medida e interrompeu o processo licitatório, que desde então está paralisado.
A residência dos Governadores foi sede da MT Fomento desde o Governo Blairo Maggi, em 2004. Em 2014, a Secretaria de Cultura tornou-se responsável pelo prédio e instalou ali o Museu de Arte – Pinacoteca de Mato Grosso. Entretanto, o Museu não funcionou por muito tempo.
Como pinacoteca, a casa chegou a receber obras raras, algumas delas doadas pelo Banco Central, como telas de Tarsila do Amaral, Cícero Dias e Clóvis Graciano. De acordo com a SEC, os objetos de arte continuam no local em uma sala e monitorados periodicamente.
Moradores - No total, 14 governadores e suas famílias moraram na residência. O primeiro foi Júlio Müller (1837-1945), no ano de 1940, quando a casa foi inaugurada.
Um ano depois, o governador recebeu seu primeiro hospede ilustre, o presidente Getúlio Vargas. Ainda moraram na casa Olegário Barros, Wladislau Garcia Gomes, José Marcelo Moreira, Arnaldo Estevão Figueiredo, Jari Gomes, Fernando Côrrea da Costa, João Ponce de Arruda, Pedro Pedrossian, José Fragelli, José Garcia Neto, Cássio Leite de Barros e Frederico Campos. O último residente foi Júlio Campos, que assumiu o Executivo em 1983.
“Era um lugar confortável. Nós oferecíamos jantares às autoridades que vinham a Cuiabá. Havia uma pérgola muito grande e bonita com uvas, que dava um charme especial. Nós fazíamos jantares com orquestras. Hoje os governadores não moram na residência, ninguém sabe onde eles moram, ficam escondidos”, disse o ex-governador Júlio Campos ao MidiaNews.
Em 1986, Campos deixou o local e decretou a criação do Museu da Residência dos Governadores. O objetivo era de que a memória do imóvel fosse preservada.
“Ficaram preservados os móveis, os talheres de prata, banhados a ouro, móveis vindo de Paris. Coisas muito bonitas. Ficaram também muitas doações feitas pelos governadores, como passaportes, documentos, canetas, vestidos das primeiras-damas no dia da posse...”, relembra.
Com a residência fechada, as obras que estavam na casa foram para o Museu Histórico de Mato Grosso, na Praça da República. Nesse processo, o ex-governador lamenta que as obras, moveis e pratarias foram se perdendo.
“A prataria, as louças francesas, coisas finíssimas e os quadros lindíssimos... Sumiram tudo. Ninguém sabe mais. Infelizmente pessoas que não têm cultura, quando assumem o Governo, não sabem guardar. Hoje se você perguntar para mim quanto resta do acervo, eu não sei. Se restar 20% ou 30% é muito”.
Projetada pelo arquiteto Humberto Kaulino, a Residência dos Governadores foi construída no estilo neocolonial conhecido como “missões”, moda no Rio de Janeiro, que influenciava muito Cuiabá.
Com 569 metros quadrados de área construída, a casa tem 26 cômodos - sendo cinco suítes -, sala de estar, sala de jantar, copa, cozinha e um anexo que era usado como almoxarifado. Foi a primeira residência em Mato Grosso a ter fogão a gás, piscina e adega.
Julio Campos conta que a piscina foi fechada para que fossem instalados, pelo então presidente da MT Fomento Eder Moraes, os monumentos com o busto de 14 governadores que moraram no local.
Uma das curiosidades da casa é que havia uma passarela ligando o local ao Palácio Alencastro, antiga sede do Governo do Estado e atualmente Prefeitura de Cuiabá.
Os cuiabanos antigos acreditavam que a casa tinha uma passagem secreta subterrânea que levava até ao prédio do Tesouro do Estado (hoje Museu Histórico de Mato Grosso, na Praça da República) e ao Arsenal de Guerra.
Contudo, não existem indícios da existência do túnel, apenas um porão subterrâneo na casa. O prédio é tombado como patrimônio histórico estadual desde 1983.
O outro lado - Em resposta a questionamento da reportagem, a Secretaria de Cultura revelou que, mesmo sendo responsabilidade da Pasta, não há contrato de limpeza e jardinagem vigente para a residência. Entretanto há um segurança contratado pela Secretaria no local. A Pasta também informa que o local está fechado devido ao processo judicial entre Cultura e Desenvolve MT. No entanto, não soube informar mais detalhes do processo.
Autor: AMZ Noticias com Midia News