Já se imaginou pensando sem certezas? Não? Tente, então. Ainda é atual a eterna discussão entre analíticos e continentais, ou mesmo entre naturalistas e positivistas. Mas há solução quando as coisas se encontram espremidas pela limitação do conhecimento humano?
Sim, há. E ela está na metafísica. Não tenho dúvida quanto a isto. Cientistas de todas as áreas do conhecimento, lá no esgarçar de sua teoria, encontram a salvação dela na transcendência. Os sentidos não o socorrem mais.
Tudo está a depender do tamanho do gênio maligno (Descartes) a operar no processo de reflexão. Quanto mais nele se crê, mais incertezas se acumulam, e as inquietações lançadas à consciência faz o trabalho de regresso.
Da dúvida hiperbólica, de extremo, regressamos e testamos, no caminho, os conceitos, práxis e sentidos das coisas.
Mas isso é uma operação mecânica, que prescinde da metafísica? Pode se ter consciência de algo necessário (desconfiança de tudo) e ao mesmo tempo divisá-la em determinado espaço tempo? É possível a consciência conhecer a si própria? Impossível, por esse caminho.
No íntimo das elucubrações teóricas, se sabe de antemão que transcender é necessário. E por que, então, se lançam as mais variadas acusações, adoçadas de referenciais dos mais variados, para analisar a uma determinada decisão de tribunais? Porque as pessoas não pensam mais, não ruminam as informações, as saboreiam como o desejar da criança, sem quaisquer limites éticos.
Estes não prescindem da metafísica, e muito menos do dever de responsabilidade social. Estar-se- á a inaugurar uma nova fase na vida do Poder Judiciário e do sistema de justiça, o empobrecimento do debate ocasionado pela ignorância dos que, atualmente, se arrogam em entender de tudo, desde as bases da construção de um monumento qualquer até os alicerces da maior das ciências.
Por que soltou, por que prendeu? E lançam, tiranamente, milhares de ‘fake news’, que virou moda, assim como moda o é na utilização do inglês em substituição à língua pátria, bem mais rica de expressões, com seus sufixos e prefixos a florear os gostos dos ‘entendidos’.
A ressurreição de Platão, Aristóteles, Descartes e Kant afigura-se urgente, senão para aplacar o ânimo de detratores ou de audazes comentaristas que a tudo parecem saber.
Nas palavras de Hegel, ‘o rodeio é o caminho do espírito’. Nessas idas e vindas, façamos da roda, que libertou o homem da carga pesada, o início da reflexão, o começo em que o gênio maligno deve ser adotado como fantasma das nossas certezas. É por aí...
*Gonçalo Antunes de Barros Neto é juiz em Cuiabá
Autor: Gonçalo Antunes de Barros Neto