Eu ainda era um garotinho no sul do Brasil quando, em pleno inverno, recebemos a visita de meu bisavô paterno, um italiano que possuía um nome nada comum - Máximo Fracasso.
Veio para passar dois ou três dias, afinal ele tinha um grande carinho por nós, e foi durante este passeio que aquele velho imigrante me chamou a atenção por um momento que nunca mais apagou se de minha memória.
Tínhamos uma bela propriedade rural e naquela tarde fria meu bisavô caminhou comigo para trás de um pomar, próximo a um galpão de cereais e a uma linda plantação de trigo.
O velho agachou-se, pegou um punhado de terra e me perguntou com seu sotaque carregado: “O que isto coso (esta coisa)”? Eu disse... “Terra”. Então ele completou: “Terra sempre terra”, e finalizou: “É por isso que estamos aqui”. Então deixou escorrer entre suas mãos, um punhado daquela terra vermelha do sudoeste paranaense.
Poucos anos depois vim para o Mato Grosso com minha família e o motivo principal, trocamos nosso sitio por outro, seis vezes maior, e sempre que tinha saudades de minha infância ressurgia aquela cena de inverno, eu me lembrava de meu bisavô, mas não entendia nada do que ele quis dizer.
Hoje mais de trinta anos depois, olhando o caso Maraiwatsede / Suiá-Missú, entendo o recado do velho Máximo Fracasso.
A terra é a maior causa de uma luta sem fim, onde todos têm direito, mas, por fim, muitos não o tem, e eu hoje também me sinto culpado por cada lágrima derramada em Maraiwatsede / Suiá-Missú, seja esta lágrima vinda de um índio ou de um posseiro. Sei o quanto é difícil sonhar e ver a realidade ser outra.
Diz um provérbio popular muito citado ”que para valer á vida, temos que nos apaixonar, pois somente assim entenderemos o principio da razão e da emoção”, mas para se apaixonar temos que ter uma causa, uma luta maior.
Maraiwatsede / Suiá-Missú é tudo isso para posseiros e para índios, “uma causa, uma luta maior”. Lá todos têm direito e nós, como Poder Público, é que fomos incompetentes, deixamos chegar aonde chegou.
Ironicamente, uma paixão precisa de um poema e de uma canção, então, a dor de Maraiwatsede / Suiá-Missú pode ser retratada, viva, pura, nua e crua no poema “Eu só peço a Deus ”, escrito por Leon Gieco e Raul Ellwanger, e que teve seus versos cantados por Beth Carvalho e Mercedes Soza.
“Eu só peço a Deus que a dor não me seja indiferente / Que a morte não me encontre um dia / Solitário sem ter feito o que eu queria / Eu só peço a Deus que a injustiça não me seja indiferente / Pois não posso dar a outra face / Se já fui machucado brutalmente / Eu só peço a Deus que a guerra não me seja indiferente / É um monstro grande e pisa forte / Toda fome e inocência dessa gente / Eu só peço a Deus que a mentira não me seja indiferente / Se um só traidor tem mais poder que um povo / Que este povo não esqueça facilmente / Eu só peço a Deus que o futuro não me seja indiferente / Sem ter que fugir desenganado / Pra viver uma cultura diferente”.
(*) EVANDRO CARLOS é jornalista e conhece o Norte Araguaia desde 1986.
Autor: Evandro Carlos