Toda vez que ouço, "Minha terra tem palmeiras, onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá”, o trecho marcante da Canção do Exílio de Gonçalves Dias, a região do Norte Araguaia me vem à cabeça.
E toda vez que me lembro do Norte Araguaia, imediatamente me vem à memória a imagem de Pedro Casaldáliga, com seu carisma forte e sua personalidade impar, o velho bispo, acusado por uns de ser comunista, por outros de estar a serviço da União Europeia, para impedir o progresso do Brasil.
Casaldáliga é um fenômeno, e sabem por quê? Tudo porque durante décadas, o estado foi inoperante no Norte Araguaia, porque somos desunidos, não aceitamos nossas próprias soluções, simplesmente, aceitamos migalhas e ideias de aventureiros de plantão, que ganham na desgraça alheia.
Se hoje, os 15 municípios do Norte Araguaia tivessem uma política de acesso para resolver a situação fundiária e ambiental, que envolve sua intensa colcha de retalhos, que vão desde titulação, licenciamento, reserva legal até APPS. Quem seria Pedro Casaldáliga?
Se os projetos SUDAM tivessem dado certo, e ao invés de milhões de dólares serem desviados para a sede de seus grupos nos grandes centros, eles estivessem gerando emprego e renda, e assim dando qualidade de vida aos jovens e as mulheres no Araguaia. Quem seria Pedro Casaldáliga?
Se tivéssemos um ótimo hospital regional, de média e alta complexidade, mantido com recursos federais e estaduais, e nossos irmãos não morressem a caminho de Palmas, capital do Tocantins. Quem seria Pedro Casaldáliga?
Se o Norte Araguaia tivesse saneamento básico, abastecimento de água tratada, aterros sanitários e coleta do lixo. Quem seria Pedro Casaldáliga?
Se nossos assentados rurais tivessem infraestrutura, logística e serviços técnicos, gerando emprego e renda, evitando o jogamento rural. Quem seria Pedro Casaldáliga?
Se as cidades do Norte Araguaia fossem interligadas por asfalto, e as áreas urbanas pavimentadas em suas principais vias, e principalmente se o asfaltamento da BR 158 estivesse concluído. Quem seria Pedro Casaldáliga?
Se a justiça de fato funcionasse como sonhamos, sem morosidade e não de praxe como é, onde não se mede o que se sente, e os problemas se arrastam por anos e décadas, como em Suiá Missú. Quem seria Pedro Casaldáliga?
Somos culpados, porque barganhamos a custo de nada, nossos míseros e sofridos votos, com políticos de fora e assim deixamos nosso povo morrer na míngua, se fossemos unidos e não votássemos em quase 20 deputados que descem ao Araguaia como salvadores da pátria e agora impedem que Silval Barbosa de ao Norte Araguaia um cargo de primeiro escalão. Quem seria Pedro Casaldáliga?
Somos vitimas covardes do preconceito e da indiferença, e o caso Marãiwatsédé X Suiá Missú provou isso, e como disse uma vez, reafirmo agora, chegamos ao cúmulo do absurdo, quando os excluídos ficaram uns contra os outros, e os oportunistas de plantão culpam Pedro Casaldáliga.
Gostem ou não, sem Casaldáliga, o Norte Araguaia seria muito pior, afinal mesmo que o velho bispo às vezes tenha lado, e que também cometa erros, ele é o único cidadão que faz o mundo perceber que o Araguaia existe.
“Quando se sonha sozinho é apenas um sonho. Quando sonhamos juntos é o começo da realidade” escreveu Miguel Cervantes em sua obra máxima, Dom Quixote de La Mancha.
No Araguaia “Nós não sonhamos juntos, então vivemos fora da realidade, pois se sonhássemos juntos, Dom Pedro seria apenas mais um bispo como tantos quaisquer”, enquanto isso não acontece a cansada voz do velho bispo ecoa sozinha, e é por isso tudo, que o sonhador Pedro Casaldaliga, é o Fenômeno do Vale dos Esquecidos.
(*) EVANDRO CARLOS é jornalista e mora em Mato Grosso desde 1986
Autor: Evandro Carlos