Quarta-Feira, 29 de Abril de 2026

Tempos líquidos




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A contemporaneidade vive um paradoxo: o comportamento líquido, consumista e individualizado versus o comportamento sólido, solidário e coletivo. Coube ao pensador polonês Zygmunt Bauman (1925 – 2017)  explicitar essa contradição, inclusive naquilo que, aos olhos de muitos, move o mundo: o amor.

Para Bauman, os relacionamentos amorosos contemporâneos são essencialmente conflitantes à medida que o ser humano sem vínculos deseja conectar-se, ou seja, criar laços, ainda que virtuais.

Provavelmente, o que engendra esse antagonismo sejam as mudanças pelas quais passa a sociedade: se, por um lado, o ser humano se sente constantemente desligado dos demais; por outro, anseia por estabelecer conexões com o próximo, mesmo que fugazes.

Daí a origem do conflito, a ambivalência perpetrada por  sentimentos, a um só tempo, perenes e possessivos; e efêmeros e libertadores. Existe um desejo de permanecer (estabildade) e de dissipar-se (instabilidade) em um momento de transição entre o pensar sólido e o pensar liquido.

O amor sólido parece ser coisa do século passado, mas como toda construção social, ele teima em resistir com seus preceitos e formas. Chico Buarque (no prelo com o “Essa Gente”), vencedor – duplamente, segundo o próprio – do prêmio Camões 2019, na época em que não existiam os celulares, nem aplicativos, tampouco internet, compôs “Mil perdões” (1984): Te perdoo/ Por fazeres mil perguntas/ Que em vidas que andam juntas/ Ninguém faz/ (...)/ Por me amares demais/Te perdoo por ligares/ Pra todos os lugares/ De onde eu vim (...)/ Quando anseio pelo instante de sair/ E rodar exuberante/ E me perder de ti...” expressou poeticamente o sentimento amoroso construído durante o século XX.

Marcado não apenas pelo sentimento de posse mas também pelo ciúme. Isso revela, antes de tudo, que aqueles relacionamentos eram feitos para durar, para serem sólidos, exclusivos.A deterioração desse tipo de relação deu-se (ou dá-se) com o advento da tecnologia e com supremacia da sociedade de consumo, que liquefez o Amor Ágape (duradouro), substituindo-o pelo Eros (momentâneo).

Rita Lee e Roberto de Carvalho, inspirados por uma crônica do Arnaldo Jabor, compuseram “Amor e sexo” (2003): “Amor é um/ Sexo é dois/ Sexo antes/ Amor depois/ Sexo vem dos outros/  E vai embora/ Amor vem de nós/ E demora (...) Amor é latifúndio/ Sexo é invasão/ Amor é divino/ Sexo é animal/ Amor é bossa nova/ Sexo é carnaval”.

Os roqueiros brasileiros e polêmico escriba parecem ter captado a essência do conflito que perpassa os relacionamentos contemporâneos. De maneira antitética, mas sem ser paradoxal, revelam a difícil coexistência dessas duas formas de amor: o bíblico (1 Coríntios 13) e a paixão (Eros).

Decididamente, não há equilíbrio entre eles, sempre um deles se sobressai; então, resta-nos a reflexão baumaniana: “No líquido cenário da vida moderna, os relacionamentos talvez sejam os representantes mais comuns, agudos, perturbadores e profundamente sentidos da ambivalência.”   

Sérgio Cintra é professor de Linguagens em Cuiabá.


Autor: Sérgio Cintra


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