Sexta-Feira, 24 de Julho de 2026

Na maior região de água doce do mundo, moradores da Amazônia enfrentam falta de água




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A 1.500 quilômetros de Breves (PA) no município de Tefé (AM), com cerca de 60 mil habitantes na região do Médio Solimões, na Amazônia Central, nenhum aluno pode beber água na escola, apesar de viverem na maior bacia hidrográfica do mundo.

Coliformes fecais foram detectados na água de todas as 19 escolas do município, levando a frequentes casos de giárdia, lombriga e diarreias.Também faltam banheiros e recursos para higiene pessoal, e qualquer tipo de saneamento básico é praticamente inexistente.

Em 52% das escolas nota-se a presença ostensiva de moscas, segundo estudo realizado em 2015 pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, organização social ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações que atua em reservas na região da Amazônia central, e trabalha com uma comunidade estimada em 13 mil pessoas.

"A qualidade da água é uma questão relevante para as crianças, as pessoas que moram na várzea não têm água de qualidade para beber. Reflete principalmente a carência de serviços públicos, a falta de energia elétrica, que inibe tanto o bombeador de água quanto tratamento de água", diz explica Maria Cecilia Gomes, engenheira ambiental e pesquisadora e coordenadora do programa qualidade de vida do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.

"Praticamente não existem esses serviços nas áreas rurais da Amazônia. A gente pode dizer que as condições de saúde são bastante precárias, principalmente na disponibilidade e a qualidade da água. Às vezes a água está presente em quantidade, mas está contaminada", afirma a pesquisadora, que cita que é comum a incidência na população de diarreia relacionada a lombriga, giárdia, ameba.

Maria Mercês Bezerra da Silva, técnica de enfermagem que atua no instituto há mais de 20 anos, diz que, apesar da precariedade, hoje nota-se mais consciência da população em relação a medidas de higiene pessoal, por exemplo, mas falta o reforço das políticas públicas que praticamente inexistem para muitas comunidades.

Mesmo quando estão na escola, a saúde das crianças está em risco. Pesquisa "Avaliação do cenário WASH (água, saneamento e higiene) em escolas urbanas e rurais de uma pequena cidade na Amazônia brasileira", publicada em 2018 com dados referentes a 2015, mostrou que as escolas de Tefé não ofereciam condições sanitárias adequadas para seus alunos e não realizam manutenção periódica de suas instalações.

"As irregularidades documentadas incluem a falta de sabão para lavar as mãos em 84% das escolas, a presença de vetores de doenças e outros insetos, bebedouros e banheiros insuficientes e com manutenção insuficiente, inundações e entupimentos de banheiros, água potável contaminada com E. coli e falta de manutenção regular de fossas sépticas. Com base em nossos resultados, pode-se estimar que mais de 9.000 estudantes no município de Tefé estão expostos a riscos resultantes das más condições sanitárias em suas escolas".

A situação é ainda mais grave para as crianças indígenas, segundo a Unicef. Do total da população autodeclarada indígena do país, 46,6% vivem na Amazônia Legal, representando 1,5% da população da região. Enquanto o Brasil registra 14 óbitos de menores de 1 ano por 1.000 nascidos vivos. Entre os indígenas, na Amazônia, morrem aproximadamente 31,3 crianças menores de um ano para cada 1.000 nascidas vivas. "É fundamental priorizar investimentos e esforços naqueles grupos de crianças e adolescentes em situação de maior vulnerabilidade", defende a entidade.


Autor: Ligia Guimarães com BBC


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