Imaginem uma região formada por 33 cidades com cenários deslumbrantes iguais a foto da capa da matéria – feita pelo fotógrafo Maike Toscano – onde vivem mais de 400 mil habitantes e com a distância de seus extremos de 1.150 quilômetros, cortados por uma rodovia (BR 158) em parte sem pavimentação.
Essa é a área considerada socialmente Vale do Araguaia, mas que na verdade tem extensão maior e mais municípios, que são desligados daquele território por se situarem próximos a grandes centros de outras regiões. Agora tentem avaliar o risco a que essa população está exposta diante da pandemia do coronavírus por conta da precariedade de sua infraestrutura hospitalar, distanciamento de moradores dos leitos, limitada e concentrada quantidade de unidades de terapia intensivas (UTIs).
Mas essa crise mundial na esfera da saúde por enquanto é um risco, um susto a mais no dia a dia de seus cidadãos que enfrentam problemas até para atendimento de baixa complexidade e que não contam com sequer um hospital que faça cirurgia cardíaca.
Assim é o Araguaia, região tão extensa que sequer consegue juntar ao conceito de sua base territorial as cidades de Santo Antônio de Leverger, Jaciara, Campo Verde e Primavera do Leste – isso somente na margem direita do rio Xingu, pois do lado oposto há Sinop, Nova Ubiratã, Feliz Natal, União do Sul, Peixoto de Azevedo, Marcelândia, Matupá e várias outras.
O Araguaia é uma região que esbanja beleza, misticismo, produção agropecuária, mas que não tem Saúde Pública – ou quase isso. O governo estadual sempre a relegou a plano inferior. Tanto assim, que a mesma pejorativamente ganhou o jocoso apelido de Vale dos Esquecidos. No poder desde primeiro de janeiro de 2019, o governador democrata Mauro Mendes não investiu um centavo de real sequer naquela área – os recursos para lá canalizados são repasses constitucionais.
A região tem apenas 20 UTIs, sendo 10 do município de Barra do Garças e outro tanto da cooperativa médica Unimed; todas naquela cidade, que além da demanda local e dos municípios mato-grossenses em seu eixo de influência, também atende a vizinha goiana Aragarças, com população de 20.118 habitantes – Aragarças, Barra e Pontal do Araguaia formam uma conurbação. O ideal, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) seriam três UTIs para cada grupo de 10 mil habitantes, ou seja, para a região seriam necessárias 134 UTIs. O déficit é de 114 UTIs. É preciso que se observe que essa proporção é para o cotidiano, sem levar em conta a pandemia, e que as mesmas precisam de distribuição de modo a encurtar a distância entre o paciente e o leito.
Em Barra, o prefeito Beto Farias (MDB), determinou que a estrutura do antigo Hospital MedBarra, desativado, na região central da cidade, seja transformado em hospital de campanha para atendimento a eventuais casos de coronavírus. O hospital pertence a um grupo de médicos cooperados da Unimed, tem 52 leitos e fechou as portas com a recente construção de um hospital da Unimed. As UTIs em Barra estão em funcionamento no Hospital Municipal Milton Pessoa Morbeck, onde permanecem sempre com pacientes, o que, em tese, significa zero de oferta para o coronavírus.
Autor: Eduardo Gomes com A Boa Midia