Em clima festivo, apesar da pandemia do novo coronavírus, a Associação Mato-grossense dos Municípios (AMM) celebra a semana de sua criação, que aconteceu em 4 de maio de 1983, por iniciativa do prefeito de Cuiabá, Anildo Lima Barros, que contou com apoio do governador Júlio Campos, seu correligionário na Arena. Entusiasta da entidade, Júlio autorizou a doação de um terreno do governo para a construção de sua sede, que é o local onde a mesma se encontra instalada.
Os sustos e o descompasso diário nos mostram que o Estado tem que investir mais e melhor na Saúde Pública. Em meio à pandemia Mato Grosso há mais de uma semana não disponibiliza insulina aos diabéticos que dependem desse medicamento. A Farmácia de Alto Custo, em Cuiabá, simplesmente se encontra com as prateleiras vazias. Diabético necessita de insulina com regularidade. A Secretaria de Estado de Saúde se limita a informar que providenciará o mecanismo pra repor o estoque. Quando tempo levará isso somente Deus sabe. É a soma da insensibilidade com incompetência ditando as normas de governo.
Com essa inconsequência o governo Mauro Mendes expõe o diabético a graves consequências Lembrem-se ainda que além do risco de morte por falta da insulina o diabético ainda figura entre os grupos de risco para o novo coronavírus. Após a pandemia a população não aceitará mais esse tipo de administração e, seguramente, exigirá maior destinação orçamentária à Saúde Pública, independentemente dos limites ordenados pelas chamadas rubricas, de agora. Por analogia, parte do dinheiro que falta a esse setor é canalizado pra manutenção da AMM, pois a fonte arrecadadora em Mato Grosso tem vários nomes, mas um só destino – o cofre do governo que o redistribui – e somente dois contribuintes – o cidadão e as empresas.
A instituição AMM cumpriu seu papel. Os tempos mudaram e mudarão ainda mais em razão da pandemia. Ninguém tem maior legitimidade pra representar o município do que o nome escolhido pelo povo pra administrá-lo. Nâo há necessidade de intermediação. Discurso de que reivindicação somente ganha peso quando feita em nome da categoria (no caso os prefeitos) não se sustenta. Os prefeitos se comunicam permanentemente. No amanhã, caso um prefeito precise ser atendido em audiência pelo governador democrata Mauro Mendes e se sinta isolado pra expor sua demanda, essa pode ser reforçada junto ao governante, por colegas, em seus grupos de WhatsApp.
Extinguir a AMM implica em demissões. Quanto a isso, é preciso observar que a entidade tem patrimônio que pode ser convertido em indenizações trabalhistas, e creio que prefeitos poderiam manter suas transferências mensais por algum período, de modo a colaborar financeiramente para o melhor desfecho dos entendimentos trabalhistas. Para exemplificar a sugestão, recorro a 2005, ano da Operação Curupira. Entrevistando um delegado da Polícia Federal sobre a ação, questionei se o fechamento de madeireiras não seria um golpe duro demais ao emprego. Com naturalidade ele respondeu que em nome do ganha-pão dos cambistas do jogo do bicho a Justiça não poderia soltar o bicheiro e comendador João Arcanjo Ribeiro.
A citação até agora isolada da AMM em meio a tantas portas que precisam ser fechadas é por conta do gancho com seu aniversário. Mas, a cristalização do Estado que nascerá com o fim da pandemia exigirá choro e ranger de dentes. Nele, o empreguismo será página virada tanto quanto as rechonchudas entidades mantidas pelo contribuinte.
Ex-prefeito Neurilan preside a AMM - Entre aplausos e críticas a AMM e uma balzaquiana a um passo de se tornar quarentona. Independentemente de palmas recebidas ou de dedos apontados sobre sua razão de ser, avalio que é chegado ao momento de se rediscutir o tamanho da máquina pública direta e indireta em Mato Grosso, incluindo essa entidade que é presidida pelo ex-prefeito de Nortelândia em terceiro mandato consecutivo, Neurilan Fraga.
Mais dia menos dia a pandemia desaparecerá tão misteriosamente como começou. Creio que quando o vírus dobrar a curva do tempo deixando um rastro de luto, dor, sequelas, sofrimento e abalo econômico no abençoado e ensolarado Mato Grosso, a figura do Estado em sua máxima abrangência passará por uma transformação que até recentemente não poderia ser sequer pensada.
Enterros coletivos das vítimas da pandemia em Manaus - Estamos à mercê da pandemia e mesmo enlutados pelos óbitos até agora registrados, Mato Grosso é bem menos atingido do que o gigante vizinho Amazonas, duramente vitimado e que perdeu a capacidade de enterrar com dignidade as vítimas da doença. Não há explicação científica para a proliferação do vírus nas terras amazonenses, e o que acontece lá poderia ocorrer aqui – a disseminação continua e não sabemos o que será o amanhã. Pode ser mera casualidade geográfica, pois ambos os estados têm pequenas populações e o perfil econômico dos dois é bastante semelhante: Manaus tem grande fluxo de estrangeiros por conta do parque industrial na Zona Franca; aqui, é intensa a presença de chineses, sul-coreanos, iranianos, britânicos, americanos, italianos, russos, japoneses e de cidadãos de outros povos também atingidos, que fazem turismo econômico em vários municípios onde atuam nos elos da expressiva balança comercial movimentada pela cadeia do agronegócio.
Deus proteja Mato Grosso. Mas, mesmo que a pandemia seja superada com menos vítimas do que em outros estados haverá cobrança popular pela melhoria da rede pública de saúde, por saneamento, universalização da água, qualidade de moradias e a eliminação da submoradia etc. Pra tanto será preciso destinar recursos orçamentários do Estado e dos municípios para os setores essenciais, o que forçará a redução do custo da máquina pública com enxugamento da folha salarial e dos duodécimos, fim das mordomias concedidas a magistrados, membros do Ministério Público, deputados, prefeitos, vereadores, sindicalistas e outras figuras do misterioso mundo do poder. Com isenção e pensamento republicano a repaginação do Estado passa pela extinção da AMM e similares.
*Eduardo Gomes de Andrade é jornalista com mais de quatro décadas de trabalho
Autor: Eduardo Gomes de Andrade