Avenida Brasil, 326, Centro - Campo Verde, Mato Grosso. Um endereço, não simplesmente um endereço entre os mais de cinco mil municípios brasileiros, e o contraste maior fica em comparação com a Capital da República, distante apenas cerca de mil quilômetros, por rodovia.
Campo Verde é o que se pode definir como município-modelo. Possui crescimento econômico acelerado em sintonia com o social e apresenta um dos melhores índices de desenvolvimento humano do País, registra o IBGE.
Com 24 anos de emancipação político-administrativa, cerca de 30 mil habitantes, Campo Verde torna-se gigante na sua pequena área territorial de aproximadamente cinco mil quilômetros quadrados. O conceito local, motivado principalmente pela Câmara de Vereadores, é o de que a economia, impulsionada pela agropecuária e implantação de empresas, não pode encontrar justificativa diante da miséria.
Apesar de não ter a contrapartida necessária do governo na participação do bolo tributário, a exemplo das demais unidades da Federação, em termos regionais Campo Verde é referência em saúde pública e educação.
A média das temperaturas na cidade é de 22 graus, ao contrário do forno que é a capital Cuiabá. O município faz divisa com Primavera do Leste, também de elevado potencial econômico, e Chapada dos Guimarães, este movido pela indústria do turismo.
Grandeza na economia e qualidade de vida, um detalhe chama a atenção na cidade de Campo Verde e provoca um questionamento. Trata-se, nada mais, nada menos, da Lotérica Fortuna (única na cidade e que também atua como correspondente bancário), localizada no endereço acima.
Aos usuários dos serviços, além da agradável temperatura interna do ar condicionado com cortina de ar na porta, está disponível água mineral gelada, cadeiras com assento almofadado e atendimento por senha. Possui ainda circuito interno de vídeo e alarme de monitoramento de incêndio. Aos cadeirantes, rampa de acesso. Nos terminais de atendimento, claramente à vista, o Código de Proteção e Defesa do consumidor.
O atual proprietário, José Roberto Campana, disse ter comprado a lotérica já com muitas das instalações existentes, mas procurou melhorar ainda mais por exigência da Câmara Municipal. Com a água mineral gelada, só falta o cafezinho, mas Campana argumenta que, por enquanto, não dá, porque os vereadores querem também que ele construa sanitários masculino e feminino. Falta aí ação da vereança para que a Prefeitura dê sua participação com algum incentivo. Fica fácil apenas exigir do empresário.
E, de Campo Verde para Brasília, centro de todos os poderes, sede da Caixa Econômica Federal, e nos demais municípios brasileiros, o que se vê? São lotéricas com filas imensas que se estendem pelas calçadas, sob sol ou chuva. Não existe o menor respeito para com as pessoas que vão pagar suas contas, seus impostos ou arriscar uma fezinha nas loterias, alimentando o sonho de uma melhor qualidade de vida, gerando ao governo federal uma fonte inesgotável de recursos.
A Lotérica Fortuna pode não ser a única, em todo o País, nessas condições invejáveis, mas, se não é, sem dúvida faz parte de um pequeno grupo no universo de milhares existentes. A questão que fica é: por que a Caixa Econômica Federal não adota um melhor padrão de qualidade nos seus serviços e instalações, diante dos bilhões arrecadados? Por que submeter os contribuintes e apostadores a esses puxadinhos chamados de “casas” lotéricas?
Empresários lotéricos de todo o país, e entre eles José Campana, reivindicam da Caixa melhores margens de lucro estipuladas nas tarifas pagas e também para a prestação de serviços, além de reclamarem do sistema operacional.
Conforme reportagem do site SRZD, a Caixa está entre as loterias mundiais que pagam menor percentual em prêmios. Balanço oficial mostra que a arrecadação em 2010 bateu recorde com R$ 8,8 bilhões. Desse montante, apenas 38% da quantia capitalizada foi destinada a premiação dos apostadores e outros tantos milhões são retidos em imposto de renda. Parte da arrecadação dos jogos é destinada a projetos de habitação, saúde, educação, assistência social, esporte e cultura.
Conforme dados disponíveis no site da Caixa, em 2010 mais de R$ 530 milhões foram destinados ao Ministério do Esporte e aos comitês Olímpico e Paralímpico. A eficiência na utilização dos recursos, porém, deixa a desejar. Segundo o governo federal, cerca de R$2 bilhões foram empregados no ciclo olímpico de Londres-2012. No entanto, o País figurou na 22ª posição no quadro de medalhas, uma acima dos últimos Jogos. E nenhuma medalha foi conquistada no atletismo, uma das provas nobres das Olimpíadas.
E por falar em atletismo, Zequinha Barbosa, o maior participante brasileiro em Olimpíadas, que em 23 anos de carreira correu o equivalente a quatro voltas na Terra, na linha do Equador, chama a atenção para a importância que o esporte tem na formação da criança e, assim, precisa ser incentivado nas escolas. No Brasil, isso não funciona muito bem, diz Zequinha.
Outro alerta vem de Joaquim Cruz, medalha de ouro nos 800 metros nas Olimpíadas de 1984. “O homem chamado Cavalo” critica a falta de renovação do atletismo brasileiro, diz que falta base e que a mina de grandes atletas está secando. Destaque-se: Zequinha e Cruz treinaram nos Estados Unidos para os Jogos Olímpicos de 1984 “com gente nos ajudando”.
A Caixa Econômica Federal deve reciclar seus conceitos. Um bom começo seria com relação às casas lotéricas. Independentemente da apatia dos representantes do povo em cada cidade (o que não é o caso dos vereadores de Campo Verde), a CEF precisa acabar com essa afronta, essa vergonha de cubículos – uma realidade que é do conhecimento de todos –, e adotar modelos que correspondam à dignidade das pessoas.
O exemplo para um novo tempo vem de Campo Verde e pode servir de referência para todo o Brasil. E, para melhorar ainda mais, que seja também obrigatória a presença de guarda de segurança nas casas lotéricas, assim como nas agências bancárias. Por que não? Dispensa-se, se for o caso, água gelada e cafezinho!
* ARLINDO TEIXEIRA Jr., mato-grossense de Vila Nova (Guiratinga) é jornalista em Brasília – arlindotj@gmail.com
Autor: Arlindo Teixeira Jr