Quinta-Feira, 15 de Janeiro de 2026

Silêncio até depois que o tempo passar – Por Eduardo Gomes




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Não se trata de projeção sombria. No campo a incestuosa relação do agronegócio com o meio ambiente mostra algumas de suas facetas: incêndios florestais por todos os lados. Córregos e baias secos, o pantanal com sede e espécies ameaçadas, altas temperaturas, baixa umidade relativa do ar – Mato Grosso é o caos. Nos gabinetes do poder político a predominância da incompetência e, em muitos casos, a imagem poderosa de manjados corruptos que conseguem a proeza de continuarem em liberdade.

Acomodada, a maioria dos que coabitam nas redes sociais em Mato Grosso é incapaz de enfrentar essa macabra realidade. Prefere o comodismo do endeusamento do Mito Jair Bolsonaro e do ex-presidente Lula da Silva; esse grupo trava intenso debate, com uma parte satanizando Lula e outra dando o mesmo tratamento a Bolsonaro. O que acontece aqui não lhes diz respeito.

Sobre o meio ambiente, parcela de ditos pensadores ligados a entidades ambientais, PT, PCdoB, igreja católica e centrais de trabalhadores adota um improducente posicionamento: insistem no fim da Lei Kandir e defendem a taxação das commodities para exportação. Uma parcela bem menor costuma citar o ‘companheiro’ Wanderlei Pignati, que é médico e professor da UFMT. Pignati carrega debaixo do braço um estudo que aponta alta incidência cancerígena na cidade de Lucas do Rio Verde, em mães na fase de amamentação – debita a doença aos agroquímicos.

Nenhuma voz de bolsonaristas e lulistas se ouve nas redes sociais sugerindo correções de rumo entre o agro e o campo. A classe política, salvo uma exceção aqui, ali e acolá, faz do mandato gazua para enriquecimento. Para reverter o cenário catastrófico que a cada dia mais se configura será preciso fazer assepsia na Assembleia, no Congresso, nas prefeituras, câmaras e não reeleger o governador Mauro Mendes. Mas, quem estaria disposto a desafiar essa gente? A resposta está nas redes sociais: silêncio sepulcral,

Se houvesse um bota-fora nunca antes registrado na Assembleia, algo na casa de 95%, poderíamos recuperar a qualidade climática. Seria preciso uma lei rígida que obrigasse a revitalização de todas as nascentes e a recomposição das matas ciliares. Os córregos alimentam os rios, mas quando eles secam, são soterrados e viram lavouras ou pastagens a tendência é que os grandes cursos d’água entrem em processo de intermitência. Não se trata de reinventar a roda, mas de simplesmente fazê-la rodar. Mas como conseguir isso com a legislatura na Assembleia tendo Max Russi, Eduardo Botelho, Xuxu Dal Molin, Janaína Riva, Moretto, Sebastião Machado, Wilson Santos, Carlos Avallone, Dilmar Dal Bosco, Delegado Claudinei, Cattani e tantos outros?

O silêncio nas redes sociais é aliado do câncer decorrente das aplicações de agroquímicos por aviões agrícolas em Lucas do Rio Verde. A concentração populacional está nas cidades e, em segundo plano, nas vilas. Com um bota-fora na Assembleia será possível criar uma lei que estabeleça um raio no entorno dos perímetros urbanos, no qual seja proibido a aplicação de agroquímicos, e após ele, que se estabeleça uma zona de amortecimento com aplicação monitorada de modo a criar um filtro contra os efeitos nocivos ao homem. Não há controle sobre isso. Itanhangá, Ipiranga do Norte, Sorriso, Santa Carmem, Santa Rita do Trivelato, Campo Novo do Parecis, Campos de Júlio, Santo Antônio do Leste, Querência, Ribeirãozinho e em muitos outros lugares a lavoura abraça a zona urbana.

Mato Grosso em desatino não discute tema dessa relevância. Para ele, relevante é Bolsonaro ou é Lula. O irrealismo é tamanho, que bolsonaristas já defendem o prefeito Emanuel Pinheiro, aquele do paletó, diante da perspectiva de que o mesmo esteja no palanque com o Mito; também tecem comentários dando como honorável a trajetória política do deputado federal Nery Geller, desconsiderando-se sua incapacidade de debate no Congresso e sua triste passagem policial que resultou na sua prisão pela Polícia Federal sob a acusação de receber propina quando ministro da Agricultura.

Fingimento é a melhor definição para o cenário mato-grossense. O agro finge que preserva, as redes sociais fingem que criticam, políticos fingem que honram seus mandatos. É assim aqui. Em Brasília, também, pois é lá que Rosa Neide continua blindando a investigação que a deixa de saia justa por conta de suposto desvio na Secretaria de Educação, quando a mesma era sua titular; na mesma capital Valtenir Pereira costura o abafamento da Operação Tapiraguaia, onde seu nome ocupa lugar de destaque num esquema de desvio de dinheiro público. Quase ninguém toca nisso.

Enquanto isso, em Tangará da Serra, há alguns anos o rio Queima-Pé, que abastece a cidade, enfrenta estiagem e não consegue assegurar água para os 107.631 tangaraenses, nem mesmo com reforço de poços artesianos. Solução existe. Basta captar no rio Sepotuba, mas a classe política local só pensa no poder e em vantagens.

Em 2022 o deputado estadual Dr. João tentará a reeleição; o ex-prefeito Fábio Junqueira sonha acordado com mandato de deputado; e Wagner Ramos, que foi deputado do time de Silval Barbosa está preparado para voltar ao palanque. As redes sociais não questionam e aceitam esses nomes com naturalidade. Pobre Mato Grosso, que também enfrenta racionamento de água em Várzea Grande e Chapada dos Guimarães.

Não há necessidade de alongar o artigo. Creio que disse tudo, por mais que muito nomes não tenham sido citados, a exemplo de Zé do Pátio. Não é preciso apontar o dedo aos que contribuem para esse cenário. Que eles continuem em silêncio, fazendo silêncio hoje e prometendo silêncio até depois que o tempo passar. 

*EDUARDO GOMES é um dos principais jornalistas de Mato Grosso com atuação de quase 50 anos no setor 


Autor: Eduardo Gomes


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