Quinta-Feira, 16 de Abril de 2026

Anuncio de ferrovia no Norte Araguaia cria sensação de ligação do nada a coisa nenhuma




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Uma ferrovia longitudinal com trecho curto, numa área de pouca produção agrícola, o que em termos de cargas resultaria num trem ligando o nada a coisa nenhuma, pois o direcionamento da obra vai contra os estudos e dados que a logistica ensina.

O presidente Jair Bolsonaro ao anunciar em suas redes sociais o programa Pro Trilhos, que tem por meta a construção pela iniciativa privada de 9,9 mil quilômetros de trilhos em vários estados, com investimento de R$ 133,2 bilhões, colheu Mato Grosso de surpresa, pois entre as obras prevista está a ligação de Bom Jesus do Araguaia com Água Boa, ambos no Vale do Araguaia, numa extensão de 249 quilômetros.

A plano para a ferrovia no Vale do Araguaia está junto a outros 26 pedidos para construção de trechos ferroviários privados concedidos pelo governo federal. Porém o Ministério da Infraestrutura não respondeu ao questionamento do Diário sobre o nome do grupo interessado na obra e a consequente exploração do transporte, nem a razão para a construção.

Bom Jesus do Araguaia é um município com 6.830 habitantes e seu mosaico fundiário é de pequenas propriedades, além de ter parte de sua área sob tutela da Funai na Terra Indígena Marãiwatsédé, da etnia Xavante. Entre as duas cidades nos extremos da ferrovia que se pretende construir não há produção agrícola que justifique os investimentos e também não se tem conhecimento da existência de minérios que possam ser transportados por trilhos.

Cercada por cinco municípios sendo que quatro estariam na área de influência da ferrovia e com mosaicos fundiários idênticos ao seu, Bom Jesus do Araguaia faz limite com Serra Nova Dourada (1.705 habitantes), Alto Boa Vista (7.092), Novo Santo Antônio (2.769) e Ribeirão Cascalheira (10.450). O outro, com mosaico diferente, Querência (18.386), tem perfil de lavouras em escala empresarial e está inserido no modal de transporte que escoa commodities para portos do Arco Norte no Pará e Maranhão.

A cidade de Bom Jesus não se localiza à margem de rio navegável, o que poderia facilitar a exploração de um multimodal hidroferroviário. A localidade não tem acesso pavimentado, mas poderá sair do isolamento da malha rodoviária federal caso se construa o Contorno Leste para deslocar a BR-158 da Terra Indígena Marãiwatsédé, ou ainda quando a BR-080 for pavimentada no trecho entre a BR-158 e a vila de Luiz Alves, em São Miguel do Araguaia (GO).

O traçado da ferrovia não foi anunciado, mas se coincidir em parte com essa terra indígena sua passagem estaria descartada, pois o cacique Damião Paridzané, líder Xavante está no limite da tolerância com o trânsito da BR-158 em sua terra e sequer aceitaria ouvir falar em trem entre os aldeados.

A economia de Ribeirão Cascalheira, o município no trajeto entre os dois extremos da ferrovia anunciada, é alicerçada na pecuária extensiva. Além da falta de regularização fundiária de boa parte da área, Ribeirão Cascalheira tem topografia acidentada, o que dificulta o cultivo de lavouras mecanizadas, que poderiam oferecer cargas para o trem.

Água Boa, no centro geodésico do Brasil, aguarda o início da Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (Fico), com 383 quilômetros ligando-a aos trilhos da Ferrovia Norte-Sul, em Mara Rosa (GO). Essa obra que estava prevista para ser iniciada no começo do ano passado foi lançada na cidade de Mara Rosa, em 17 de setembro, pelo presidente Jair Bolsonaro, o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas e o governador Ronaldo Caiado (GO).

Transcorridos cinco meses do lançamento não há nenhuma movimentação para colocação dos trilhos. Enquanto espera pelo apito do trem o município alinhava projetos sociais e para estimular investimentos agroindustriais, "visando o mercado de transporte que se anuncia", cita o prefeito Mariano Kolankiewicz.

O terminal de grãos da Fico, que deverá ser construído em Água Boa, será o principal ponto de embarque de commodities rumo ao porto de Itaqui (MA) em conexão com a Norte-Sul. Porém o raio de abrangência dessa ferrovia é relativamente curto em razão da localização de Água Boa, que sofre concorrência logística.

No trem da Fico, Água Boa deverá embarcar sua produção e dos vizinhos Nova Nazaré, Cocalinho, Canarana, Gaúcha do Norte, Nova Xavantina, Campinápolis e Ribeirão Cascalheira, que formam a área de influência dessa ferrovia ainda em projeto.

O escoamento da produção dos demais municípios do Vale do Araguaia, no polo de influência de Barra do Garças, distante 230 quilômetros ao Sul de Água Boa, terá a melhor rota quando da conclusão da pavimentação da MT-100, era em fase final, e que dá acesso ao terminal ferroviário da Rumo Logística, em Alto Araguaia, e que faz a ligação com o porto de Santos.

A produção no Vale do Araguaia, entre Querência e Vila Rica, incluindo São Félix do Araguaia, Confresa e São José do Xingu tem escoamento mais apropriado pela BR-158 para alcançar os portos do Arco Norte no Maranhão e Pará, conforme o observam o prefeito de Querência, Fernando Gorgen, e o presidente do Sindicato Rural de São José do Xingu, Fernando Tulha.

A área de abrangência de Primavera do Leste, Santo Antônio do Leste, General Carneiro, Campinápolis, Tesouro, Guiratinga e Campo Verde é atendida pelo terminal graneleiro da Rumo em Rondonópolis. Essa região deverá contar com opção para embarque ferroviário quando da construção da ferrovia estadual Senador Vicente Vuolo.

REALIDADE – Obra ferroviária além de alto custo normalmente demora. Em 20 de julho de 2021 o governador Mauro Mendes e o CEO da Rumo, João Alberto Fernandez Abreu, assinaram o contrato de adesão da empresa à obra e exploração do transporte da primeira ferrovia estadual, a Senador Vicente Vuolo, com 743 quilômetros ligando Rondonópolis a Cuiabá, e a Lucas do Rio Verde.

Quando dessa formalização a previsão era que a execução exigiria investimento superior a R$ 11,2 bilhões, e o governo anunciou que o trem apitaria em Cuiabá no segundo semestre de 2025 e em Lucas do final de 2028. O documento de adesão à ferrovia Senador Vicente Vuolo estabelece que a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) teria que analisar os documentos de intervenção ambiental em seis meses, e que a Rumo contaria com igual prazo para iniciar a construção.

A preciosidade do prazo para o sinal verde ambiental não será cumprida, admite entre outras palavras a empresa e o governo faz silêncio sobre isso, o que empurra o cronograma para a frente. Quanto aos trilhos longitudinais ligando Bom Jesus do Araguaia a Água Boa por enquanto não passam de anúncio governamental em ano eleitoral.


Autor: Eduardo Gomes com Diário de Cuiabï


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