Sou um símbolo espástico, gástrico, náutico, náufrago mesmo na multidão. Às vezes itálico, negrito, em caixa alta, exclamativo, algumas vírgulas de engasgo (porque tem um lance de timidez) e raras, mas magníficas, reticências. Sou retificador, vocês também são, não mintam. Convulso, tenho frio e tenho medo, avulso das coisas circundantes. Boio, como uma alma, no espaço.
Frígido, frígido, rígido, gélido, mórbido, pálido e mau, mas nem tão mau, nem todo o tempo – de vez em quando rio ou acho graça. Farsa, sou sempre uma farsa, e a farsa que faço é um honesto papel: lembre-se do seu sotaque, do seu time, do seu sexo, eu digo, e você se situa.
Contrato/sociedade desmanchada com o contato. A preguiça pesa no ato, as dores antigas constrangem o ato que há. Rebato feroz o contato, me eriço, me exalto, me viro a cara pro lado. Não quero, não posso de fato com a força do ato – recalcado, bicho rato, vivo de comer migalhas, de guardar junto de mim comida velha.
Queria leves luares e logos e luz, e lânguidos, longos e lindos suspiros, vibrâncias de flor e de mel. E a cor amarela e os velhos amigos nos novos e todos sorrindo de dentro de mim. Queria um roxo que fosse na canela, uma conversa demorada, uma canção, uma singela inclinação pros sentimentos verdadeiros. Uns olhos firmes e certeiros, famintos e desejosos. E calma, imperturbável calma, inesgotável, calma, fresca calmaria. Queria.
Mas fica pra outra hora.
*Tom Custódio da Luz, 22 anos, é escritor, compositor, cantor, músico e colaborador do Jornal da Notícia
Autor: Tom Custódio da Luz