Pronto, está tudo feito, não resta mais nada. Nada pendente, as providências foram tomadas e encontrou-se saídas. Quer dizer, resolveram-se as pendências, quitaram-se as dívidas de que se manteve registro – das outras não se sabe, e que sumam do mundo os credores. Agora não falta nada, não há discrepância, não é? Agora está tudo em perfeita ordem.
Do terreno vazio fez-se a casa e da casa fez-se um lar e do lar um depósito de produtos. E do depósito de produtos? Fez-se algo mais? Quando tudo dançava de acordo, todas as notas foram cantadas em seus tempos, quando os sexos obedeceram às ordens ao sexo, quando as roupas sujas foram enfim lavadas e o armário voltou a ficar repleto de possibilidades, quando enfim surgiu a energia para lavar toda a louça, arrumar os antigos papeis, colocar as fotos em álbuns, mandar revelar algumas outras, depois disto tudo, surgiu alguma coisa?
Da barriga cheia depois de dias sem comida, da sede morta depois da fuga do deserto e do encontro da terra prometida; destas coisas, surgiu alguma outra? Superado o medo do escuro, as dificuldades financeiras, as intrigas, conseguidos os amores-objeto, ganhados os presentes desejados; depois de polido com esmero o brasão da família, de eliminado com sucesso o último grão de poeira – algo se seguiu a isso?
Quando tudo de valor estava ao alcance das mãos, quando o bolso tilintava de moedas de ouro, quando o reino dos céus era o destino certo do crente devoto que (não obstante a miséria do mundo) sabia estar fazendo tudo segundo a vontade de deus; daí, o que veio? Quando chegou o natal, a promessa foi cumprida, o amor se reafirmou – e a carência também –, quando a ceia foi ceada e os espíritos e os estômagos se recostaram nas cadeiras, o que surgiu?
Foi o tédio, não foi?
E por que é que de novo tu terás fome e crerás que a próxima refeição será a definitiva?
É só isso o que te falta? É mesmo fome o que tu tens?
*Tom Custódio da Luz, 22 anos, é escritor, compositor, cantor, músico e colaborador do Jornal da Notícia
Autor: Tom Custódio da Luz