A criação de uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável – RDS, no município de Luciara, no norte Araguaia, esta causando uma nova onda de tensão, atos de protesto e clima de violência na região.
Segundo informações obtidas pelo Jornal da Noticia, o clima no município é tenso desde que manifestantes contrários a criação da reserva começaram os protestos na sexta feira dia 20/09, com o bloqueio da MT100, estrada que liga a cidade a outros municípios da região, a via de acesso foi liberada neste domingo, dia 22/09.
Neste final semana, a tensão aumentou e dividiu ainda mais a opinião dos favoráveis a dos contrários ao projeto governamental, duas casas de moradores de comunidades localizadas em terras da União, foram queimadas durante o conflito envolvendo retireiros e fazendeiros, uma delas foi incendiada na manhã do domingo (22) e outra, de propriedade do presidente da Associação dos Retireiros do Araguaia, Rubem Taverny Sales, na noite de quarta-feira (18), ele faz parte da Comissão Nacional de População Tradicional.
O delegado Waner dos Santos Neves, responsável pela investigação sobre o caso, afirmou que há dois suspeitos de cometer os incêndios, mas até agora ninguém foi preso. "Temos a suspeita de quem tenha cometido os incêndios, mas ainda estamos ouvindo testemunhas e tudo vai ser apurado", disse.
A assessoria da prefeitura de Luciara, informou ao Jornal da Noticia, que o prefeito Fausto Azambuja temendo pela segurança de ambas as partes, solicitou reforços policiais para o município a fim de garantir a segurança à população local.
A divisão é clara, pois de um lado, estão os sitiantes que defendem a criação de uma reserva florestal e, do outro, outros proprietários de terras que temem ser expulsos do local, a informação é do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
A criação da RDS prevê a desapropriação das propriedades levantadas em Cartório, porem a falta de informação sobre quem de fato ocupa a região tem aumentando o conflito e a insegurança, aja visto que Luciara surgiu justamente destes retiros ocupados por famílias a décadas.
Segundo fontes o atual projeto ignora os posseiros no momento que prevê a indenização em face da desapropriação dos titulares de domínio (título, escrituras), e não os inclui na reserva (o que poderá ocorrer, após avaliação) e no processo de criação da RDS, o retireiro é encarado como um aliado para garantir a preservação da biodiversidade, como mero fiscalizador do governo, diga-se de passagem, sem remuneração, ignorando o históricosocial do cidadão.
O medo dos manifestantes, é que a região envolvida na reserva se torne uma nova Suiá Missu, "a cidade está fechada nos dois sentidos. Ninguém entra e ninguém sai", disse um morador ao Jornal da Noticia.
Além das casas queimadas, pesquisadores e um grupo de alunos de mestrado em geografia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) também foram expulsos da cidade
O professor Cornélio Silvano Vilarinho Neto, que coordenava o grupo, disse que o ônibus em que estavam foi barrado, duas vezes na estrada e foram obrigados a voltar para Cuiabá.
Conforme o professor, eles foram impedidos de continuar a viagem com destino a São Félix do Araguaia, a 1.159 km da capital, passando por Luciara. "Eles avançaram no ônibus, andamos um pouco e, depois que paramos, conversei com eles, disse que iríamos para São Félix do Araguaia e eles disseram que tínhamos que voltar para Cuiabá, se não iriam atear fogo no ônibus. Fomos parados duas vezes e monitorados até que chegássemos em Alto Boa Vista, por homens que estavam em uma caminhonete. Notamos que eles não estavam brincando com a gente", relatou.
O professor contou que a viagem era para conhecer a região, mas eles foram confundidos com pesquisadores do Instituto Chico Mendes. "Iríamos fazer um trabalho para conhecer a região, claro que iríamos conversar com os retireitos, conheço esses retireiros, mas nunca imaginei que tivesse esse conflito", disse. Segundo ele, com a criação dessa associação de retireiros, os pequenos pecuaristas, que estão no local há muitos anos, descobriram que essas terras são devolutas da União, e daí pediram que fosse transformada em unidade de conservação, porém, "os fazendeiros que estão no local demonstraram resistência e, por isso, estão fazendo ameaças". Outro pesquisador já havia sido impedido de permanecer na cidade nessa mesma semana.
Por conta dessas ações criminosas e de ameaças, inclusive aos moradores, o representante do ICMBio em Mato Grosso, Fernando Francisco Xavier, informou ter solicitado a intervenção da Força Nacional de Segurança na região. "A situação em Luciara é gravíssima. Nessa semana, chegou em um nível de confronto até então não estabelecido na área, a ponto de pessoas fecharem a cidade de Luciara", avaliou.
Fernando Xavier explicou que existe um grupo de moradores que participou da colonização de Luciara e que, desde o início desse processo, criam gado em áreas inundadas no Araguaia. "Quando alaga eles levam o gado para áreas mais altas e quando abaixa voltam com o gado. Agora, eles pleiteam uma unidade de conservação federal para garantir o território e manutenção das atividades agroextrativistas", disse. Porém, segundo ele, há muitos posseiros na região que são contra essa ideia.
Na avaliação do representante do ICMbio, houve equívoco por parte dos fazendeiros, já que nem o pesquisador, nem o grupo da UFMT, iriam realizar consulta pública. "Tem algumas pessoas, com interesses contrários, disseminando informações erradas de que esses fazendeiros seriam retirados da área. O processo ainda não está pronto, mas precisamos aprofundar esse debate. Nós estamos preocupados porque tem pessoas sendo ameaçadas lá e hoje queimaram outra casa", finalizou.
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Autor: JornaldaNoticia/G1/AgenciadaNoticia