Segunda-Feira, 16 de Fevereiro de 2026

Os verdadeiros heróis contra o crime organizado - Quem realmente derrubou Arcanjo




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"Sem o papel preponderante da imprensa esses falsos heróis que querem governar o estado estariam hoje disputando eleição para síndico de condomínio, se muito!" 

No início da década passada, existia um poder paralelo em Mato Grosso, comandado por um homem chamado João Arcanjo Ribeiro, que decidia quem era pra viver e quem era pra morrer aqui no estado. Só quem vivenciou aquele período pode dizer como foi tenso, tenebroso, tendo culminado com o assassinato do jornalista e empresário Sávio Brandão. Lá se vão 11 anos, mas somente agora o principal suspeito de seu assassinato, João Arcanjo Ribeiro, foi julgado e sentenciado a 19 anos de prisão. Não sem tempo, pelo crime imprescritível e irreparável.

Naquela época estavam entrincheirados nas redações de jornais bravos combatentes, como Edilson Almeida, Noelma de Oliveira, Ailton Segura, Ronaldo Pacheco, Antonio de Souza, Flávio Garcia, Ivana Maranhão, Jorge Estêvão, Jorge Maciel, Jonas da Silva, Sergio Neves, Ana Cristina, Darvin Júnior, Natacha Wogel, Sueli Arruda, Fernando Parracho, Marcos Antônio Moreira (Vila), Laura e Adeildo Lucena, Daniele Danchurra, Malu Souza, Bebeto Amador, Luiz Acosta; José Ribamar Trindade, Fablício Rodrigues, Maurício Barbant, Marcos Bergamasco, este que vos escreve (o Muvuca) e toda uma safra de combatentes jornalistas que enfrentaram o medo, a ameaça, a pressão, sem disporem, sequer, de um colete a prova de balas.

As redações tremiam num misto de euforia quando se estampava na capa de algum jornal que Arcanjo era o Al Capone de Mato Grosso. Lembro-me de editor que pediu demissão após ser ameaçado de morte, lembro-me das reuniões de pauta onde se decidia ou não sobre determinada capa. Um desses jornalistas, Sávio Brandão, pagou com a própria vida por este enfrentamento.

Hoje, carolas políticos arrogam-se serem mandantes ou terem participado da operação Arca de Noé, que culminou com a prisão do temido João Arcanjo Ribeiro. Mas estes senhores da toga ou da denúncia formal andavam em carros blindados e cercados por seguranças, tinham a proteção absurda do estado, quando eram acompanhados por policiais federais até para fazer uma simples caminhada matinal ou tomar um café na padaria. E eles só foram para o campo de batalha depois que nós, da imprensa, fizemos o trabalho pesado e perigoso do enfrentamento em campo aberto.

Para aqueles senhores que levaram a fama, a vida era mais fácil, com tapetes vermelhos, holofotes, ar-condicionado, altos salários e proteção, muita proteção! Enquanto nós, os jornalistas, dávamos a honra e a glória a eles, mesmo sabendo que fomos nós, mesmo com a proteção apenas da própria fé em Deus. Afinal, quem protegia os jornalistas - quando publicávamos aquilo que todo mundo via e ninguém tinha coragem de dizer - ameaçados que éramos sobre a existência do crime organizado em Mato Grosso?

Pode ter havido um promotor que ofereceu denúncia, um juiz que acatou a prisão, mas antes deles, fomos nós, os jornalistas, a imprensa, que colocamos a cara a tapa para mostrar a sociedade, que enfrentamos ameaças, que não andávamos com seguranças nem carros blindados. Fomos nós os verdadeiros heróis, que oferecemos a vida de um dos nossos para que algo fosse feito pela sociedade amedrontada. Só que hoje, em nome da carreira política de um ou outro, atribui-se esta coragem de lata àqueles que cumpriam nada mais que seu dever formal, protegidos e bem remunerados, após serem pressionados pela sociedade e peça imprensa corajosa, para hoje eles beberem o sangue de um jornalista assassinado afim de se promoverem.

Sávio Brandão deu sua vida por uma causa, nós decidimos viver por ela, ou outras, mas não há nada de heroico por parte daqueles que usam politicamente seu feito sem ao menos reconhecer que, quem acertou a pedra mortal de Davi na testa do gigante assassino foram os bravos guerreiros da imprensa, cada um a seu modo ou obedecendo as próprias limitações editoriais. Esta é a verdadeira história por trás do manto imaginário que endeusa os falsos paladinos que sequer reconhece quem foram os verdadeiros soldados e heróis que foram para o campo de batalha.

As gerações de jornalistas que vieram depois, portanto, não tem noção do que enfrentamos para noticiar o mundo cão daquele período. Mas se os que chegaram agora reconhecerem em suas respectivas redações algum desses remanescentes, rendam-lhes suas homenagens, em nome da verdadeira história, do bom jornalismo, do destemor, da nossa profissão que não é fácil, em nome da coragem do mártir Sávio Brandão que deu sua vida para que o crime organizado perdesse sua força.

A história por trás da história precisa ser revelada. Cedo ou tarde a verdade vem a tona, e para que a justiça das palavras também seja feita, considero não cometermos o erro de apagar da história os verdadeiros heróis afim de endeusar os falsos combatentes que se aproveitaram da situação para se promover politicamente, paladinos de holofote ou oportunistas de plantão que se escondiam, como até hoje se escondem atrás de policiais federais e carros blindados enquanto nós estávamos e estamos nas ruas de peito aberto enfrentando o poder paralelo.

Agora, quando tudo parece distante, e se constroem mitos de papel, faço este reparo histórico em nome dos heroicos e até então anônimos soldados que direta ou indiretamente enfrentaram com a cara, a coragem, a caneta e um bloquinho de papel na mão, aquilo que os covardes enfrentaram encolhidos por trás do aparato policial. 

 

*José Marcondes "Muvuca" é jornalista e pré-candidato ao governo do estado de MT em 2014.


Autor: José Marcondes "Muvuca"


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