Foi, sem dúvida, além da bela votação, a campanha mais pontuada de imprevisão e heroísmo. Falo da campanha do Senador Aécio Neves.
Começou com uma boa arrecadação de recursos, montada numa bem articulada teia de alianças estaduais, com boas candidaturas postas tanto para os governos estaduais como para o senado.
Aí cai o avião.
O velório, que começa na quarta e acaba no domingo, transforma se em ato político, com manifestações de muita comoção, sofrimento e dor.
Vêm as pesquisas e começa um processo de esvaziamento da candidatura tucana.
"Relegado a um segundo plano pelos opositores, se dando muito mal nos sorteios de perguntas e respostas, passou em branco como se fosse um candidato nanico. "
Os números caindo, aliados perdidos e até olhando com simpatia o fenômeno Marina. Alguns se omitindo, outros “vazando”, ainda que insignificantes. Aqueles que Brizola falava que são os primeiros a largar “casa velha quando pega fogo”.
Foi um movimento duro de enfrentar. Até culminar com o debate no SBT.
Antes, o candidato tinha despachado para Minas sua irmã, Andréa, uma das coordenadoras baseadas em São Paulo.
Tentaria pelo menos salvar a candidatura do partido no estado, também fazendo água. Foi uma sinalização dura para a militância e anotada pela imprensa de todo país.
Mas aquele debate foi um verdadeiro filme de horror para o candidato.
Relegado a um segundo plano pelos opositores, se dando muito mal nos sorteios de perguntas e respostas, passou em branco como se fosse um candidato nanico.
Ao deixar o estúdio, apenas quatro jornalistas o abordaram numa constelação que pontuava toda imprensa brasileira e até estrangeira.
Antes, enfrentara um engarrafamento e quase chega atrasado ao local.
Vai para o hotel sozinho e ali na solidão prepara a reação. Como fazem os grandes políticos. Planejam as grandes decisões, as grandes reações e só aí dá o comando para os liderados.
Na solidão, repensa o que foi feito, entende que uma confusa e difusa onda atravessa toda a campanha e percebe que uma “onda da razão” ainda viria e que sua candidatura poderia ser esta “onda”.
Confiava o senador ter um bom diagnóstico da situação caótica atual do país, baseada no tripé inflação, baixo crescimento e corrupção.
Passa a amanhã no hotel; à tarde, chama o marketing e dá o comando.
Convoca uma coletiva com a presença do FHC e reafirma seu programa de governo.
O resto já é história.
*Paulo Ronan é economista, ex-professor de Macroeconomia da UFMT e autodidata em História
Autor: Paulo Ronan