Era muito difícil ficar impassível frente ao professor Carlos Alberto Reyes Maldonado...
Conheci-o na primeira metade da década de 1990, num almoço em Cáceres, quando se discutia a criação da Unemat. Ele me foi apresentado por um triunvirato: professor Sérgio Cintra, jornalista Osmar de Carvalho e pelo meu saudoso compadre Auro Ida (in memorian), o "Japonês".
Ficamos esperando o então secretário de Estado de Educação, vice-governador Osvaldo Sobrinho, para o almoço. Sobrinho não apareceu nem justificou o “bolo” nos convidados. E Maldonado não se fez de rogado, ignorou a ausência do chefe e realizou a explanação do que seria hoje a Universidade de Mato Grosso, a nossa Unemat.
Na época, o Instituto de Ensino Superior de Cáceres (IESC) era mantido pelo Estado às duras penas e ninguém melhor do que Maldonado sabia disso. Faltava de giz até livros básicos na biblioteca, passando por carteiras e professores. Pensei: esse barbudo é doido varrido. Mas não falei nada, porque não estava ali para opinar e, sim, fazer uma reportagem.
Osmar de Carvalho era coordenador de Comunicação da Seduc. Auro Ida era o principal repórter do jornal “A Gazeta” e, eu, do “Diário de Cuiabá”. E Sérgio Cintra era o mais respeitado professor de língua portuguesa em cursinho pré-vestibular e amigo de Maldonado.
Na época, ele ainda era do PT. Depois, migrou para o PPS. Mas sempre foi "vermelho", realmente defensor do socialismo. E, ao montar a Unemat, provou para mim e outros que não era louco, mas, sim, um visionário.
Talvez por isso Maldonado tenha sido um dos poucos mato-grossenses ouvidos pelo então senador Darcy Ribeiro (RJ) para contribuir com a elaboração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (9.394/96). Darcy era um dos defensores do socialismo moreno, trazido por Leonel Brizola – consolidado pela Carta de Lisboa.
A inteligência aliada à sua militância levou Carlos Maldonado a ocupar cargos públicos: primeiro, reitor da Unemat. Depois, galgou a condição de Secretário de Estado de Educação, no governo Dante de Oliveira (in memorian) e, na seqüência, foi convidado para a Secretaria Municipal de Educação, na administração Roberto França (1997-2004).
Interessante é que Maldonado foi responsável por implantar a escola ciclada, hoje bastante discutida, tanto na rede estadual quando na rede municipal. Fã de Darcy Ribeiro, considerava o modelo de ciclo o melhor para tirar os estudantes da condição de ouvintes para transformá-los em protagonistas do debate.
Tive discussões homéricas com Carlos Alberto Maldonado, principalmente na administração Roberto França, onde fui secretário adjunto de Comunicação (de Auro Ida) e, no fim do mandato, titular da Secom – em substituição por causa da licença do “Japonês”.
Creio que, se houvesse julgamento isento, diria que perdi todos os debates com o professor Carlos Alberto Reyes, porque não é fácil bater boca com gênio da dialética. Na época, por me considerar no mesmo nível dele – pelo menos na administração pública – jamais admitira a derrota num debate, publicamente.
Carlos Alberto Reyes Maldonado deixou um legado de esperança para quem crê num ensino público gratuito e de qualidade, no Brasil, principalmente em Mato Grosso.
De qualquer forma, parafraseando o meu amigo Sérgio Cintra: “o homem se vai, mas a idéias ficam”. Foi uma honra ser contemporâneo de Carlos Maldonado, o genial contendor. Descanse em paz, nobre gênio.
*Ronaldo Pacheco é jornalista em Cuiabá e Editor de Política do portal Olhar Direto.
Autor: Ronaldo Pacheco