Dia desses, numa conversa entre amigos do Movimento Muda Brasil, em Cuiabá, ouvi do também amigo, professor e consultor, Luiz Antonio Valle, uma interessantíssima avaliação sobre a formação das elites brasileiras, comparadas às norte-americanas na formação do projeto de nação lá e cá. Vieram-me à lembrança distantes aulas de uma disciplina chamada "Civilização Contemporânea", na UnB, no curso de Jornalismo. De repente, vendo o Brasil no estado em que está e nos seus altos e baixos históricos, preenchi velhas lacunas de percepção. Grande parte da formação de qualquer país está no projeto de nação que queira.
As elites brasileiras remontam ao descobrimento e à povoação do país no século 16 e seguintes, com elevado espírito extrativista de recursos naturais, debaixo de uma sempre presente expectativa de retorno à Corte portuguesa. Eram aventureiros ou burocratas portugueses, de um Portugal pelo menos 100 anos atrasado em relação ao resto da Europa. Já nos Estados Unidos, peregrinos calvinistas fugiam de perseguições religiosas na Europa mudaram para as colônias na América. Não tinham volta. Era gente que tinha posições político-religiosas e preferiram mantê-las, abandonando a pátria. Os peregrinos fundaram em 1636 a Universidade de Harvard. Peregrinos, é o nome dado aos primeiros colonos ingleses, que eram calvinistas, e que se estabeleceram na Nova Inglaterra, região que veio a ser o embrião dos Estados Unidos, em 1620. Em torno dessas famílias originais, do fervor de suas crenças e de seus valores morais, a nova nação foi sendo construída.
A imprensa e o ensino regular chegaram ao Brasil depois de 1808 com a vinda de D. João VI que fugia de Napoleão. Daí pra frente aos poucos foi se construindo uma nação sempre juntando cacos dos erros anteriores, mas sem projeto futuro. Os líderes políticos de todas as épocas sempre improvisaram uma nação. Nunca se construiu de fato um projeto de nação. Nos EUA as elites do país são construídas desde as "high schools", algumas das quais de altíssimo nível. Depois, algumas universidades como Harvard, Yale, Stanford, Pensylvania, Sul da Califórnia, Princeton e Cornell, historicamente preparam os líderes superiores que vão dirigir o país em todas as áreas. Eles replicam na economia, nos negócios e na política um projeto de nação que se deseja ao longo do tempo, agora e no futuro. O leitor deve estar se perguntando: e o restante da população? Ora, ela estuda de forma comum, mas vive dentro do projeto de nação que se perpetua no tempo. Basta consultar a História.
A única experiência bem sucedida das elites brasileiras no campo da educação, foi a criação em 1932 da Universidade de São Paulo, com fins específicos pra economia cafeeira de São Paulo. O assunto continua em outro artigo na próxima sessão.
*Onofre Ribeiro é jornalista em Mato Grosso desde 1976, consultor em comunicação e estratégias e professor
Autor: Onofre Ribeiro